Ttulo: ADORVEL MENTIROSA
Autor: Kathryn Ross
Ttulo original: The love-child
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1998
Publicao original: 1997
Gnero: Romance contemporneo
Digitalizao: Nina
Reviso: Cris Paiva
Estado da Obra: Corrigida

Precisa-se de uma bab!

Escritor de sucesso procura pessoa discreta e experiente para cuidar de uma garotinha.
Rumores apontavam Pearce Tyrone como o misterioso pai de Patty, e Cathy sentiu-se tentada a descobrir a verdade. Para isso, candidatou-se ao emprego de bab que ele oferecia. Fascinado por Cathy e pela forma como tratava a menina, Pearce teve certeza de que ela poderia ser muito mais que uma bab. Mas os segredos no duram para sempre, e o cerco estava se fechando contra Cathy. No demoraria e teria de revelar por que estava trabalhando ali...

ADORVEL MENTIROSA
Kathryn Ross

CAPTULO I

O sol brilhava na Cote D'Azur. Cathy estava deitada numa espreguiadeira  beira da piscina do hotel. Passar um feriado na parte oriental do litoral francs estava sendo maravilhoso. Era uma chance de relaxar, j que seu trabalho num jornal londrino era muito estressante.
	Mademoiselle Fielding, telefone  o garom avisou-a.
	Para mim?
Cathy franziu a testa e sentou-se de pernas cruzadas, chamando a ateno de dois homens que estavam passando.
	Tenho certeza de que sim, mademoiselle  o garom afirmou.
	Tudo bem, obrigada.  Cathy prendeu uma mecha de cabelos atrs da orelha e pegou o telefone.  Al?
 Cathy, aqui  Mike. Tenho boas notcias.
Aquele era o editor do jornal, Mike Johnson, um homem de quarenta e cinco anos de idade, rabugento e to duro quanto uma pedra.
 Tomara que esse telefonema valha a pena  ela falou com aspereza, pois no queria ouvir falar de trabalho.
Todos tm direito a um descanso, pensou.
	Aposto que j est entediada e ansiosa para voltar  Mike disse.
	Com certeza  ela murmurou com sarcasmo.
	Tenho um furo de reportagem.
Cathy lutou contra o impulso de perguntar o que era. Mordeu o lbio inferior para controlar-se, mas no resistiu:
	Diga.
	Pearce Tyrone est na Cote D'Azur.
	E da? Isso  novidade? Ele  um escritor de sucesso. Deve passar longas semanas aqui.
	A filha de Jody Sterling est com ele. Essa informao  exclusiva, e nenhum dos outros jornais...
	Informao segura?
	Muito segura. A pequena Patty chegou na casa de Tyrone esta manh.
Cathy tivera seu interesse aguado. Jody Sterling fora notcia nos jornais recentemente, pois sofrera um acidente automobilstico. Era uma talentosa atriz. Loira e de beleza estonteante, frequentemente era o centro das atenes da mdia, principalmente depois de ter dado  luz uma criana, sem revelar o nome do pai.
Muitas especulaes surgiram. A revista C Va fotografara a atriz nos braos de Jonathan Briars, um poltico casado, e o escndalo quase arruinara a carreira dele. O outro nome ligado  atriz fora o de Pearce Tyrone.
Pearce era um enigma. Ningum sabia muito a respeito daquele homem de trinta e sete anos de idade, a no ser que era um escritor de sucesso, sempre com seus livros na lista de best-sellers. Cathy vira a fotografia dele poucas vezes, quando os paparazzi conseguiam flagr-lo na sada de restaurantes ou hotis.
Ele no concedia entrevistas e mantinha os jornalistas a distncia. Preservava-se muito bem. No havia informaes sobre sua vida, na contracapa dos livros que escrevia, e nenhuma foto, apesar de ele ter fabulosos olhos pretos, que faziam Cathy pensar no deus grego Adnis. Quando mais ele se recusava a aparecer em pblico e dar entrevistas, mais atiava o interesse do pblico e da imprensa.
Seria ele o pai do beb de Jody Sterling? A pergunta ecoou pela mente de Cathy.
	Est interessada?  Mike perguntou.
	Estou, mas isso no faz meu estilo. Gosto de notcias, no de escndalos,
	Linda est em Nova York. Voc  a reprter mais prxima dele  Mike declarou com rispidez.  E, de qualquer maneira, os vos esto cancelados, porque os aerovirios entraram em greve. Eu no conseguiria mandar algum a tempo. Tem de ser voc mesmo. V at l e consiga uma entrevista.
	Espere um pouco! Esse escritor acha que uma sesso de autgrafos  uma invaso de privacidade. Como vou conseguir uma entrevistai
	Use sua iniciativa. Voc  boa nisso. Oh, e no se esquea de tirar fotos. Dependo de voc. Seu emprego depende de voc.
Mike desligou o telefone.
Que maravilha, Cathy pensou. Nada melhor do que terminar uma conversa por telefone, ouvindo um ultimato. Mike deve estar rindo, s de me imaginar tentando entrar na casa de Pearce Tyrone.
Uma hora depois, Cathy dirigia o carro alugado ao longo da rua,  procura da casa de Pearce Tyrone.
Ela perguntara no hotel onde era a casa do famoso escritor, e uma das recepcionistas informara que ficava na rua principal de uma vila muito afastada de Antibes. Tratava-se de uma casa escondida por um grande porto de ferro com dois lees de bronze, um de cada lado.
Cathy desceu a rua devagar, notando que a maioria das casas era escondida por portes ou grandes copas de rvores. Ento, avistou o porto de ferro e os dois lees. Estacionou o carro do outro lado da rua e olhou para os lees com o corao batendo acelerado. Agora, tinha de pensar em como entrar.
Um ponto positivo era que no havia concorrentes. Os outros membros da imprensa ainda no tinham conseguido chegar ou a informao de Mike era falsa.
Cathy observou o porto atentamente. Era operado eletronicamente e havia duas cmeras, uma em cada pilastra. No seria nada fcil entrar.
Mordeu o lbio. No podia tentar uma aproximao direta. Talvez pudesse usar a ttica da mulher angustiada. Olhou-se no espelho retrovisor. Grandes olhos verdes num rosto perfeito e cabelos loiros ondulados que, no escritrio, fizeram-na ganhar o apelido de "Barbie". Aquele apelido irritava-a profundamente. s vezes, pensava que por ser loira e ter um corpo em boa forma, seu trabalho no era levado a srio.
Contudo, ter uma boa aparncia tinha suas vantagens, e ela podia utilizar-se daquilo naquele momento. Apertaria o boto do interfone, diria que seu carro estava com problemas e pediria para usar o telefone.
No, no podia agir to sorrateiramente. Conseguiria aquela entrevista de uma maneira limpa. Determinada, ligou o motor do carro, virou-o na direo do porto e foi em frente. Como suspeitara, as cmeras imediatamente focalizaram-na.
 Por favor, identifique-se  uma voz masculina pediu atravs do interfone.
Por uma frao de segundo, Cathy hesitou, mas recuperou-se e disse confiante:
 Estou aqui para ver o sr. Tyrone.
Houve um momento de silncio, ento, para completo espanto de Cathy, o porto abriu-se.
Aqui estou, ela pensou. A honestidade  a melhor poltica.
Mesmo contente por ter conseguido passar pela primeira etapa, sentia que algo no estava certo. Fora fcil demais. Com cautela, dirigiu o carro pela alameda at que avistou a casa.
No havia nada de extravagante na fachada, mas, mesmo assim, o lugar era bonito, um osis de tranqilidade, cercado por rvores e lindas flores. A porta da frente encontrava-se convidativamente aberta.
O que mais Cathy poderia pedir? Estacionou o carro perto de onde floresciam gernios e alfazemas. Desceu do veculo, passou as mos no vestido branco, alisando-o, e caminhou na direo da porta.
Agora, tinha de pensar em como a entrevista teria incio. Comearia perguntando ao sr. Tyrone se ele era ou no o pai da filha de Jody Sterling? Ou era melhor perguntar se a talentosa atriz nomeara-o tutor da criana? Seus pensamentos foram interrompidos ao ver Pearce Tyrone em pessoa.
Ele era muito atraente. Todos os pensamentos de Cathy relativos a trabalho desintegraram-se. Pearce tinha mais ou menos um metro e oitenta de altura. As poucas fotografias que Cathy vira no a prepararam para o fato de ele ser um homem sexy, muito menos para o magnetismo dos olhos pretos.
 Onde esteve?  ele indagou furiosamente.  Estou esperando por voc h horas.
Cathy no pde fazer nada alm de fit-lo, totalmente apanhada de surpresa.
  da agncia, no?  Pearce perguntou com impacincia, franzindo a testa e observando-lhe
o corpo atentamente.
Ela movimentou a cabea afirmativamente, embora no estivesse gostando nem um pouco daquilo, s que tambm no queria estragar sua chance de entrar na casa.
 Graas a Deus!  ele exclamou.  A menina no pra de chorar.
Cathy procurou algo inteligente para dizer, mas no encontrou. Tudo no que conseguia pensar era que Pearce tinha acabado de confirmar que havia uma criana na casa. Em silncio, atravessou a porta da frente e observou Pearce fech-la.
 A agncia informou-lhe os detalhes?  ele indagou.
Cathy estava ficando com os nervos  flor da pele, sem saber do que ele estava falando. De todo modo concordou, movendo a cabea.
 Muito bem  ele declarou.  Vou lev-la at Patty. Falaremos de negcios depois.
Cathy seguiu por uma escada em espiral. Mike no iria acreditar na sorte que ela estava tendo. A informao que ele dera estava correta. A filha de Jody Sterling estava naquela casa.
Pearce guiou-a por um longo corredor, onde, de repente, Cathy ouviu o choro de uma criana. Conforme aproximavam-se do final do corredor, o choro tornava-se mais alto.
Ele abriu a porta de um quarto pintado de amarelo-claro. As cortinas brancas esvoaavam na brisa suave que entrava pela janela. No centro do aposento, estava um homem de meia-idade, que tentava confortar um beb no bero. Quando entraram, o senhor fitou-os, aliviado.
	Au secours, a suffitl  ele exclamou em francs, olhando de Pearce para Cathy.
	No se preocupe, Henri. Fez o que podia e estou grato. A bab est aqui e cuidar de tudo.
O tom de voz de Pearce era extremamente autoritrio. Cathy olhou por sobre o ombro para ver onde a bab estava. Qualquer um que conseguisse fazer aquela criana calar-se ganharia sua admirao. De sbito, tomou conscincia de que a bab era ela!
 Bem, no fique a parada!  Pearce exclamou. 
Cathy pensou em contar a verdade, dizer que no entendia nada de beb e que era jornalista. Olhou fixamente para os olhos dele e concluiu que a verdade podia esperar. Antes que sasse daquela casa, tentaria descobrir algo a respeito de Pearce e do beb.
Assim que o senhor de meia-idade saiu do quarto, Cathy aproximou-se do bero e olhou para a menininha, tentando descobrir o que estava causando-lhe desconforto.
Ela, havia pouco tempo, escrevera um artigo intitulado "Como ser me nos dias de hoje". Havia feito muita pesquisa, mas, infelizmente, fora muito mais teoria do que prtica.
 S chora, desde que chegou  Pearce contou. 
 Estou preocupado.  Aproximou-se do bero. Tentei segur-la nos braos de diversas maneiras, aliment-la, troc-la, mesmo assim, ela continuou chorando. Nunca me senti to intil.
Cathy ergueu as sobrancelhas. Era engraado ver um beb to pequenino fazer um homem to poderoso e autoritrio ficar sem saber o que fazer. Ela podia apostar que ele nunca havia se defrontado com aquela sensao.
Inclinou-se e passou a mo na barriguinha do beb. Como num passe de mgica, a criana parou de chorar. Cathy inclinou-se ainda mais e sussurrou:
 Qual o problema, querida?
Patty fitou-a, mas voltou a chorar segundos depois, com um renovado vigor, levando as mozinhas aos olhos. Pobre criana. Esperara ver o rosto da me, porm deparara-se com o de uma completa estranha.
 Quer sair desse bercinho e sentir o calor dos meus braos?  Cathy sugeriu.
Acariciou os bracinhos e as perninhas de Patty. Ento, com cuidado, ergueu-a do bero. O choro parou quase que imediatamente. O alvio de Cathy e Pearce era quase palpvel.
 Por que todo esse choro?  Cathy indagou com carinho, pousando o dedo indicador no queixo
do beb.
Patty tinha apenas nove meses e era linda. Segurou com firmeza o dedo de Cathy, como se estivesse com medo de ser abandonada de novo. A me, Jody Sterling, estava em coma, num hospital em Paris, e talvez nunca se recuperasse.
Cathy devia ter pego Pearce num momento de estresse, pois do contrrio, nunca passaria daquele porto. Com um pouco de sorte, admitiria que no era a bab e que ficaria grata se ele concedesse uma entrevista.
	Parece que ela gostou de voc, senhorita... Cathy hesitou.
	Fielding... Catherine Fielding  respondeu. Pearce franziu a testa.
 O nome que a agncia informou era... Eu esperava Mabel... Ou algo assim  disse.
Seguiu-se um breve silncio.
	Mabel  meu nome de batismo, mas nunca o uso  Cathy mentiu.  No gosto dele, voc gosta?
	Francamente, prefiro no dar minha opinio. O que me interessa  que seja to qualificada quanto me informaram.
Cathy comentou consigo mesma que era qualificada para escrever uma histria que mostraria ao pblico o verdadeiro Pearce Tyrone. Se ficasse mais algum tempo naquela casa, conseguiria informaes suficientes para alegrar o rabugento Mike.
	Oh, sou muito bem qualificada  afirmou. Patty puxou-lhe uma mecha de cabelos.
	Ui!  Cathy exclamou, abrindo um sorriso. Olhou para Pearce e percebeu como ele olhava carinhosamente para a criana.
 Por que no se comportou assim comigo ou com Henri?  ele indagou.  Por que s parou
de chorar no colo dessa mulher?
A criana balbuciou e fitou-o como se compreendesse cada palavra.
 Talvez eu lembre a me dela  Cathy sugeriu, sorrindo.  Temos a mesma cor de cabelos.
Ser isso?
Pearce fitou-a com frieza. No fez nenhum esforo para responder. Se queria intimid-la, no estava conseguindo, pois ela estava convicta de que s sairia daquela casa com boas informaes.
 Eu... eu sei que no sou to estonteante quanto Jody Sterling  disse.  Patty  parecida com
ela, no acha?  Ajeitou a criana no colo.  Ou acha que se parece mais com o senhor?
Tentou perceber algo na expresso dele, mas era difcil dizer o que se passava na mente de Pearce. Ele apenas encolheu os ombros e respondeu laconicamente:
 Se  o que diz, srta. Fielding...
 Mas o que o senhor acha?  ela insistiu, franzindo a testa.
Ele ergueu uma sobrancelha, com ar irritado.
 Acho que no tenho tempo para ficar discutindo essa bobagem com uma empregada  declarou.
Cathy chegou a concluso de que Pearce Tyrone no apenas mantinha-se afastado da imprensa, mas tambm de todas as pessoas, dependendo da classe social delas, claro. Ele era um esnobe, um arrogante que erguera barreiras sociais, um homem que no queria ser importunado pelos empregados. Cathy ficou furiosa.
 Seu quarto  ali  Pearce falou, apontando para uma porta que ligava o aposento do beb a
outro.  Posso pedir a Henri que pegue sua bagagem no carro?
Aquela pergunta fez com que Cathy se conscientizasse da situao. Certamente que a bab moraria na casa, e Pearce suspeitaria de alguma coisa, se descobrisse que ela no trazia nenhuma bagagem.
 Oh, no... Posso traz-la sozinha, obrigada  ela falou.
Pensou em quanto tempo ainda continuaria com aquela farsa, antes de a verdadeira bab chegar.
 Tudo bem  Pearce concordou, ento olhou para o relgio de pulso.  Cuide de Patty, depois
v se encontrar comigo em meu escritrio em... dez minutos. Desa a escada, primeira porta  direita.
Assim que ele saiu, Cathy sentou-se numa cadeira, pois suas pernas estavam trmulas. No gostava do que estava acontecendo e se recriminava por ter chegado to longe.
No era uma pessoa fria e calculista. Nunca fingira ser outra pessoa para conseguir uma matria, mas aquilo parecia irresistvel. Alm do mais, sua curiosidade ficara aguada.
Olhou para o beb, que observou-a com seus enormes olhos azuis e de repente riu.
 Pode rir  vontade  Cathy murmurou.
Pensou em desistir de tudo, contando a verdade, pois enganar um homem como Pearce Tyrone era arrumar encrenca. Mas j estava dentro da casa, onde nenhum outro reprter tinha conseguido entrar. Colocou Patty no bero, abriu a bolsa e pegou a mquina fotogrfica.

CAPITULO II

O quarto era bem equipado, pois tudo o que um beb precisava encontrava-se ali. Com medo de ser descoberta, Cathy comeou a agir rapidamente. Tirou fotos de Patty, depois das roupinhas e dos brinquedos espalhados pelas prateleiras.
Um barulho no corredor fez com que ela guardasse a cmera na bolsa. Segundos depois, Henri apareceu.
	Tendo dificuldades, mademoiselle?  ele perguntou ao v-la mexer numa gaveta.
	S estou me familiarizando.
 O sr. Tyrone quer v-la em seu escritrio. Cuido de Patty.
Henri sentou-se numa cadeira e ficou observando-a. Cathy achou aquilo muito perturbador, mas a promessa de uma grande matria acalmou-a.
 O sr. Tyrone tem estado muito ocupado  comentou, olhando para as prateleiras.  Ele saiu
e comprou tudo isso depois do acidente com a srta. Sterling? Ou tem isso aqui desde que a criana
nasceu?
Como Henri permanecesse em silncio, Cathy ftou-o fixamente.
 Eu no sei, mademoiselle.
No sabia ou no podia dizer? Irritada, Cathy cruzou o aposento e abriu a porta de interligao, parando entre os batentes. Seus olhos arregalaram-se ao ver o luxo e a beleza do outro quarto. O carpete branco e a colcha de seda turquesa na cama de casal davam ao aposento um ar de opulncia. Uma grande janela proporcionava uma bela vista do mar Mediterrneo. Perto do armrio embutido, ela viu a porta do banheiro.
	O sr. Tyrone gosta de dar luxo aos empregados  murmurou, surpresa.
	 um quarto de hspedes  Henri explicou.
	E aqui que Jody Sterling dorme, quando aparece para uma visita?
	Esta  uma casa grande, mademoiselle. Eu no sei.  Ele olhou para seu relgio.  No deve deixar monsieur Tyrone esperando.
Cathy bufou e observou-o. Era bvio que Henri no daria nenhuma informao.
 Vou me arrumar  ela falou, ento fechou a porta de interligao.
Tirou a cmera fotogrfica da bolsa, mas, antes de bater as fotos, entrou no banheiro e abriu a torneira, para encobrir o rudo da mquina.
Pelo menos, tenho algo para dar a Mike, pensou satisfeita, guardando a cmera na bolsa antes de fechar a torneira. Agora, tenho que conseguir algumas declaraes de Pearce Tyrone.
Olhou-se no espelho e viu que algumas mechas de cabelo estavam soltas. Sorriu e comentou consigo mesma que tinha sido uma tima idia aparecer diante do tirano com os cabelos presos, como uma bab que se prezava. Com rapidez, soltou-os e prendeu-os de novo.
Ento, foi  procura de Pearce. Andando pelo corredor do andar de baixo, ouviu a voz dele. Seguiu o som. A cada passo que dava, sentia sua confiana diminuir.
 Sua agncia assegurou que me ofereceria servio imediato  Pearce estava dizendo, irritado.
Cathy parou na porta do escritrio. Observou o interior da sala com interesse profissional, tentando captar cada detalhe.
Pearce encontrava-se sentado atrs de uma enorme mesa. As paredes eram cobertas por estantes com prateleiras repletas de livros e uma outra porta dava acesso a um pitoresco jardim. Atrs de Pearce havia uma mesa menor com um computador, um fax e uma cafeteira.
Ele no a fitou, pois conversava ao telefone. Cathy no invejava seja l quem fosse do outro lado da linha, pois no gostaria de lidar com o temperamento irascvel de Pearce. Apenas torcia para que conseguisse sua histria antes que ele descobrisse a verdade.
 No estou satisfeito  ele reclamou.  Pago bastante dinheiro e espero...
Parou de falar ao perceber que Cathy estava na porta. Olhou-a de cima a baixo, observando-lhe o corpo com grande interesse.
 Deixe para l  Pearce declarou abruptamente.  Esquea. Telefono mais tarde.
Colocou o fone no gancho.
	Problemas?  Cathy perguntou com doura.
	Nada que eu no possa resolver.
O tom de voz dele era totalmente profissional, e sua expresso, remota e nada amigvel.
	Est diferente  ele comentou.
	Diferente?
	Seus cabelos estavam com umas mechas cadas.
	Oh.  Cathy passou a mo nos cabelos.  Patty puxou-os, e antes de descer tornei a prend-los.
	Entre e sente-se.
Pearce indicou a cadeira a sua frente. Sentindo-se como uma criana que aprontara alguma travessura e havia sido mandada para a sala do diretor, Cathy obedientemente acomodou-se. Por alguns instantes, Pearce no falou nada, apenas observou-a. Ela teve de fazer um grande esforo para no se sentir intimidada.
 Ento, voc  a srta. Catherine Fielding, a fabulosa bab  falou.
 Bem... eu... fao o melhor que posso. Cathy tentou no se mostrar nervosa, mas era difcil, porque nunca fingira ser outra pessoa.
	Sabe digitar no computador?  ele indagou.
	Sei.
	Excelente.  Pearce sorriu.  Minha secretria me abandonou. O prazo de entrega de meu novo livro est vencendo, e preciso que algum digite minhas anotaes.
	Isso no ser problema.
 Certo, agora vamos ver suas referncias.
Cathy ia abrir a boca para dar uma desculpa por no ter levado nada parecido, quando o viu abrir uma gaveta.
 Eles mandaram via fax, ontem  noite, mas, para ser honesto, no tive tempo de l-las  ele
declarou.
Ela observou-o colocar algumas folhas de papel sobre a mesa.
	Falaram muito bem de voc.
	Falaram?  Cathy repetiu, aguardando o momento em que seria descoberta.  Posso tomar um caf?
	Claro. Puro?
Ela no teve chance de responder, porque o som de uma campainha ecoou pela casa.
	H algum no porto.  Pearce hesitou, ento ficou de p.  Com licena. Vou ver quem , j que Henri est cuidando de Patty.
	Claro.
Cathy ficou aturdida, pois poderia ser a verdadeira bab. Mas o que esperava? Pretendia continuar com aquela farsa por quanto tempo?
Assim que Pearce saiu, ela se levantou e caminhou pelo escritrio. Mexeu numa pilha de papis num canto da mesa, mas eram apenas contas. Leu as referncias da bab, que era de uma agncia de Londres, chamada Elite.
A qualquer momento, ficarei frente a frente com a indignada Mabel Flowers e com o furioso Pearce Tyrone, pensou.
Rapidamente, abriu algumas gavetas, mas apenas encontrou papis e disquetes. No sabia o que estava procurando, s estava desesperada para encontrar qualquer material para uma matria, antes que fosse expulsa da casa.
Fechava uma gaveta, quando o telefone tocou. Depois de ouvi-lo tocar trs vezes e ver que Pearce no ia atender, ergueu o fone.
	Residncia de Pearce Tyrone - declarou.
	Gostaria de falar com o sr. Tyrone  uma mulher de sotaque ingls disse.
	Lamento, mas ele no est no momento. Quer deixar recado?
Houve uma breve pausa, antes de a outra mulher perguntar com quem estava falando.
	Com a secretria do sr. Tyrone  Cathy esclareceu, mordendo o lbio.
	Aqui  Janet Mercer, da agncia Elite, de Londres. Sinto informar que a bab que contrataram, a srta. Mabel Flowers, est com dificuldades de chegar at vocs. Greve dos aerovirios.
Cathy arregalou os olhos, no acreditando na prpria sorte.
	Estvamos nos perguntando onde ela poderia estar  disse, ao mesmo tempo em que olhava angustiada para a porta, com receio de que Pearce aparecesse.
	Sei que a queriam o mais rpido possvel, mas est difcil. O melhor que posso fazer  mand-la de trem, mas isso s ser possvel na segunda-feira da semana que vem. Lamento.
	 uma pena.
	Se quiser cancelar nosso contrato e contratar alguma bab das redondezas, compreenderemos.
	Oh, no, deixe como est.
Aquilo daria a Cathy uma semana para escrever sua matria. No que pretendesse ficar tanto tempo, pois provavelmente estaria fora daquela casa na manh seguinte, com informaes suficientes para alegrar Mike.
 Bem,  muita gentileza sua  a mulher falou, aliviada.
Colocava o fone no gancho, quando Pearce apareceu.
	O que est fazendo?  ele indagou, franzindo a testa.
	O telefone tocou e, como disse que eu seria sua secretria, atendi.
	Prefiro que no atenda.
Pearce entrou no escritrio, e Cathy sentou-se na cadeira. 
 Desculpe, eu s estava querendo ajudar  ela murmurou.
Ele acomodou-se na cadeira giratria e fitou-a bem dentro dos olhos.
	Quem era?
	No sei dizer ao certo quem era  declarou.
	No sabe? Era do hospital?
Agora Cathy compreendia o modo rude de Pearce. Ele estava preocupado com Jody Sterling e devia estar aguardando notcias.
	Oh, no  ela negou, voltando a relaxar.  Na verdade, pensei que era um reprter. Ele fez umas perguntas estranhas, queria saber se a filha de Jody Sterling estava aqui e se voc era o pai da menina.
	O que falou?
	Nada. O que eu deveria falar?
	Deveria ter dito que no era para ele se meter em minha vida e que, se publicasse uma nica palavra que fosse mentira, eu o arruinaria para o resto da vida.
Pearce Tyrone no era uma pessoa que algum gostaria de desafiar. Era melhor Cathy sair daquela casa o mais rpido possvel.
 Desculpe  ele pediu, sorrindo.  Eu no devia descontar minha raiva em voc.
 Desculpe. Eu no devia ter atendido o telefone. O sorriso dele fez com que Cathy sentisse uma estranha sensao.
 Isso no importa  Pearce declarou.  Onde estvamos?
Ao recordar que as referncias de Mabel Flowers estavam sobre a mesa, Cathy ficou ainda mais apreensiva.
 Na verdade, o senhor ia me servir um pouco de caf  ela falou.
Pearce despejou caf em duas xcaras, entregando uma a Cathy, que fingiu no ter segurado a pequena vasilha, fazendo com que o objeto casse sobre a mesa e despejasse o contedo sobre as referncias.
 Oh, no...  ela murmurou.  Desculpe. 
Pearce no disse nada, apenas retirou da mesa alguns objetos e papis que julgava importantes. Cathy observava tudo ansiosamente, dizendo a si mesma que tinha conseguido tornar ilegvel o nome e o endereo de Mabel.
	No aconteceu nada  ele falou.
	Deixe-me ajud-lo.
Ela ficou de p, pegou o papel das referncias e esfregou com tanta fora o nome e o endereo de Mabel que a folha rasgou. Pearce segurou a mo delicada com firmeza.
	Srta. Fielding, est piorando a situao  declarou.
	Estou?
O toque da mo mscula em sua pele deixou Cathy desconcertada. Ela tentou soltar a mo, mas Pearce no a libertou. Seus rostos estavam muito prximos. Cathy notou que a pele dele era bronzeada e sentiu o perfume da colnia masculina.
	Algo errado?  ela indagou, procurando manter o tom de voz neutro.
	Tem um pedao de suas referncias na mo.
	Tenho? Oh... Desculpe.
Devagar, Pearce abriu os dedos dela e pegou o pedao de papel. Cathy observou-o. S sentou-se e relaxou, quando viu que o texto ficara completamente ilegvel.
	Desculpe  sussurrou.
	Espero que no seja normalmente to atrapalhada, srta. Fielding.
	Foi um acidente. Peo desculpas.
Cathy estava furiosa consigo mesma. Sentia-se culpada por estar se passando por outra pessoa, mas, ao mesmo tempo, via-se compelida a levar a farsa adiante, pois seria fantstico escrever uma matria sobre o intocvel Pearce Tyrone.
	Isto est ridculo  ele murmurou, pegando outra folha de papel sujo de caf.  Vou pedir  agncia que mande nova cpia.
	Posso voltar para Patty?
Seria um alvio para Cathy, ficar longe dele.
Toda vez que o fitava, sentia-se dominada. Achava que era sua conscincia, pois no gostava de mentir.
	Fique onde est  Pearce ordenou, depois pegou uma folha em branco e uma caneta.  Devo lembr-la de que minhas exigncias so muitas. Foi por isso que contratei uma bab da agncia Elite.
	Claro.
	Eu disse  agncia que me mandasse a melhor bab que tivessem.
Cathy permaneceu calada. Estava preocupada, pensando em quais seriam as exigncias.
 A agncia falou que voc tambm sabe cozinhar  Pearce declarou.
Ela tentou no empalidecer, porque mal sabia fritar um ovo.
	Como deixei claro para a srta. Roberts ao telefone...  ele se interrompeu brevemente.  O nome dela  esse, no?
	Bem, na verdade, apenas conversei com Janet Mercer.
	Oh, claro, falei com a sra. Mercer na primeira vez em que entrei em contato com a agncia. Disse que desejava algum que limpasse a casa, cozinhasse e cuidasse de Patty.
Cathy percebeu que ele no havia oferecido outra xcara de caf, talvez porque estivesse com medo de um novo desastre.
 Tambm quero que faa uns trabalhos de digitao nas horas vagas, por isso, vamos organizar as tarefas  Pearce prosseguiu.
Cathy tentou no fazer uma careta. Cozinhar, limpar, cuidar de uma criana e digitar! Nem Mary Poppins teria conseguido.
 Quer dizer alguma coisa?  Pearce indagou, observando-a atentamente. 
O ar de arrogncia dele deixou Cathy enraivecida. Havia algumas palavras que ela gostaria de dizer, mas pensou em colocar na matria que Pearce Tyrone tratava seus empregados como escravos. Queria ver a expresso de Mike, quando lesse aquilo.
	Quanto vai me pagar?  perguntou com frieza.
	A agncia no lhe informou?
	Informou, mas vai querer que eu faa tarefas extras, como digitao.
	Voc  bem direta, srta. Fielding. Uma qualidade que admiro. Vamos falar sobre seu salrio.
Declarou uma quantia que quase fez Cathy cair da cadeira. No era de admirar que ele fizesse muitas exigncias. Afinal, estava disposto a pagar uma pequena fortuna. A teoria de escravizador de empregados parecia insana. Pearce estava pagando por servios de alta qualidade.
	Essa quantia  aceitvel, srta. Fielding?
	E,  aceitvel.
Cathy tentou manter o tom de voz neutro para que ele no percebesse quanto estava assombrada.
	Ter as sextas-feiras livres  Pearce informou.
	Tudo bem.
Cathy comentou consigo mesma que j no estaria naquela casa, na sexta-feira. No pretendia ficar ali alm do tempo estritamente necessrio.
 Preciso ir a Antibes esta noite  mentiu,
pois tinha de telefonar para Mike e pegar suas roupas no hotel.  Tenho um compromisso...
	No perde tempo, hein? E um encontro?
	No, no...
	Srta. Fielding, contratei uma bab que pudesse se dedicar inteiramente a Patty. Aquela criana necessita de cuidados para se adaptar ao seu novo ambiente. No preciso e nem quero uma bab que deseje escapar para os braos do amado todas as noites. Se  assim que pretende agir,  melhor ir embora.
	"Deseje escapar"... Como ousa falar comigo dessa maneira?
	Oh, ouso, sim. Minha prioridade  Patty. Preciso saber se ela vai ser cuidada, e muito bem, a noite toda. Temos de deixar isso bem claro. Voc no vai a Antibes. Se no pode se dedicar unicamente quele beb e a esta casa, diga-me agora, pois assim no perderemos mais tempo.
	E muito direto, sr. Tyrone. Agora sei por que admira tanto essa qualidade.
	Estamos entendidos?
	Perfeitamente.
	Que bom.
Pearce acomodou-se na cadeira e abriu um amplo sorriso. Cathy ftou-o, refletindo no que escreveria a respeito dele. Era um dspota, um esnobe pouco amistoso, mas tinha a aparncia de um artista de cinema.
Todas as mulheres ficariam atradas por Pearce Tyrone, pois ele possua um forte magnetismo. Algo parecido com atrao fatal.
 Voc comea suas tarefas domsticas com o caf da manh  Pearce declarou.  No precisa se preocupar com o jantar desta noite. Para o caf da manh... torradas  francesa e caf, s sete em ponto. Gosto de pontualidade. Algum problema?
 Nenhum, se eu no estiver com Patty. Cathy perguntou a si mesma o que seriam torradas  francesa.
 O almoo  servido  uma hora da tarde  ele informou.  Uma refeio leve. Pode ser a
seu gosto. Tenho certeza de que possui grande talento na cozinha.
Conforme ia escutando-o, Cathy pensava no artigo que escreveria. Deveria ter planejado melhor sua entrada naquela casa. Penetrar na intimidade de Pearce Tyrone no seria nada fcil. Precisava ganhar a confiana dele com cuidado.
E como faria para telefonar a Mike e pegar as roupas no hotel?
	Quem faz as compras?  indagou, esperando ter uma chance de sair da casa.
	No se preocupe com isso. Henri providenciar o que for necessrio.
Seguiu-se um breve silncio.
	Na verdade, prefiro eu mesma comprar os ingredientes para os meus pratos  Cathy falou.  Sou muito seletiva.
	Henri tambm .
	Mas preciso sair, amanh! Tenho de pegar o resto de minha bagagem.
	Onde est sua bagagem? Pensei que tinha acabado de chegar de Londres.
	Bem, eu...
Cathy sentiu as faces avermelharem-se. Estava pouco  vontade, e era preciso encontrar uma desculpa para ir buscar suas roupas no hotel.
	Vim direto da casa de uma famlia de Antibes  disse.  A filha deles j est em idade escolar e no precisa mais de mim.
	Por que deixou suas coisas l?
	Bem... por precauo. Gosto de deixar tudo acertado antes de mudar para uma nova casa, especialmente para a casa de um homem solteiro.
	Entendo. No h nada a temer com relao a mim, srta. Fielding.
De alguma forma, aquelas palavras soaram mais como um insulto. Talvez Cathy no fosse o tipo de mulher preferido dele.
 Isso  um alvio  Cathy declarou com aspereza.  No quero ms interpretaes.
	Nem eu. No fao amizade com meus empregados.
	tima atitude.
Pearce deu uma risadinha. Cathy indagou a si mesma o que haveria de engraado em ser esnobe. Ficou furiosa. Ele no riria, quando lesse o artigo que ela planejava escrever. Aquele pensamento alegrou-a.
 Tambm preciso ir a Antibes amanh  Pearce falou.  Podemos ir juntos.
Cathy franziu a testa, preocupada. Como tiraria suas roupas do hotel e telefonaria para Mike, com Pearce a seu lado? Para piorar, Pearce esperava v-la entrar numa residncia, mas ela no conhecia ningum em Antibes.
	E Patty?  ela perguntou.  Quero dizer, no podemos...
	Levaremos Patty conosco. No vamos demorar.  Ele olhou para o relgio de pulso.  Agora, se no se importa, tenho de trabalhar.
	Claro.
	Traga meu jantar aqui.
Cathy teve vontade de mand-lo plantar batatas, mas mordeu o lbio. Sua chance de ser irreverente viria mais tarde, quando publicasse a histria sobre o verdadeiro Pearce Tyrone.

CAPITULO III

Quando Cathy saiu do escritrio de Pearce, Henri descia a escada com .Patty nos braos.
 Acho que est na hora de alimentar Patty, mademoiselle  ele declarou, entregando-lhe a
criana.
Cathy segurou o beb nos braos.
 Antes de eu ir para casa, mademoiselle, preciso lhe mostrar como operar o porto  Henri
falou.
Cathy seguiu-o, indo parar na cozinha. Era um local amplo, com uma grande mesa e armrios de carvalho. Mais adiante, num balco, dois monitores mostravam o porto.
	Aperte aqui e aqui  ele disse, apontando para um painel de controle.  Sempre pergunte quem , antes de abrir o porto. Monsieur apenas deixa passar pessoas que tm hora marcada. Ele  um homem muito ocupado.
	Eu sei.
Cathy estava consciente de que entrara na casa porque tivera muita sorte.
	Eu vou embora. Feche o porto assim que eu sair  Henri declarou.
	Voc no mora aqui?
	No.
Aquela era uma boa notcia. Enquanto Pearce trabalhava no escritrio, Cathy conheceria a casa sem interrupes. Patty remexeu-se e balbuciou.
  melhor eu aliment-la  Cathy falou, sorrindo e colocando a menina na cadeirinha prpria para bebs.
Henri abriu a porta do armrio.
 Encontrar aqui tudo o que precisa  disse. Cathy ficou aliviada ao ver muitos potes de comida para bebs.
	Obrigada  agradeceu.
	Agora eu vou, mademoiselle. No se esquea de fechar o porto.
	No esquecerei.
Henri parecia muito gentil, e ela lamentava ele no ter uma certa inclinao para indiscries. Mas Cathy resolveu tentar mais uma vez.
	O que voc faz aqui?  indagou num tom de voz amigvel.
	Cuido do jardim, limpo a piscina.  Henri encolheu os ombros.  Mantenho a residncia limpa.
	Acha o monsieur Tyrone um bom patro?
	Acho. Trabalho para ele h doze anos. Minha mulher tambm trabalhava aqui.  Henri fez uma pausa, e uma expresso de tristeza cobriu-lhe o rosto.  Sophie morreu h cinco meses.
	Sinto muito.
Ele pousou a mo no ombro dela.
	Trinta anos de casamento, e guardo boas lembranas  declarou.  Agora, tenho meus netos e meu trabalho... Monsieur Tyrone tem sido muito compreensivo. Ele sabe o que  amar e perder a pessoa amada.
	Sabe?
Antes que Cathy pudesse perguntar mais alguma coisa, Henri cortou o assunto e mostrou-se muito agitado.
 J falei demais  ele murmurou, aproximando-se da porta.  No se esquea de fechar o porto.
Cathy observou-o partir, desapontada. Mais alguns segundos e teria conseguido saber um pouco mais sobre Pearce Tyrone. Quem ele amara e perdera?
O choro de Patty trouxe-a de volta  realidade.
Quando Cathy levou ao escritrio o jantar de Pearce, numa bandeja, sentia-se exausta. No tivera tempo de dar uma volta pela casa, pois ocupara-se totalmente a Patty.
Cuidar de uma criana era trabalho duro, mas ela surpreendera-se consigo mesma. Na verdade, at chegara a gostar da experincia.
Pearce mal percebeu a presena de Cathy, pois estava sentado ao computador, digitando. Ela pousou a bandeja na mesa.
 Como est Patty?  ele perguntou.
Sem ser convidada, Cathy acomodou-se numa cadeira.
 Est dormindo  respondeu.  Demorou para pegar no sono.
	Acha que  por causa do novo ambiente?  Pearce sugeriu, preocupado.
	Se ela fosse mais velha, eu diria que est sentindo saudade da me. Alguma novidade sobre as condies da srta. Sterling?
	Nenhuma. Liguei para o hospital h pouco. No houve mudanas no quadro clnico.
Pearce parecia preocupado, e Cathy sentiu d, pois aquela era uma situao delicada.
 Pobre Patty  ela sussurrou.
Ele abriu um sorriso.
 Percebi que vocs duas conversaram muito, na cozinha  comentou.
Cathy sentiu-se enrubescer. Dando a papinha a Patty, conversara com ela, tentando encoraj-la a comer. Lembrou-se de que andara pelo quarto com a menina no colo, cantando uma cano de ninar.
	Apareci na porta do quarto, s para ver como voc estava se saindo  Pearce falou.
	No o vi.
	Voc estava to entretida com Patty, que eu no quis perturb-la.
Cathy realmente entretivera-se com a menininha. Sentia muito carinho por ela. A intensidade daquele sentimento pegara-a de surpresa. Talvez tivesse a ver com o fato de ter perdido a me quando ainda era um beb.
 No fique embaraada  Pearce disse.  No sabe o alvio que senti quando vi voc agindo
to naturalmente com Patty. Ela vai precisar de muito amor e ateno nesse perodo.
A excessiva preocupao dele com Patty comoveu Cathy, que ficou observando-o. Seguiu-se um silncio, carregado de um tipo de emoo que Cathy no conseguiu definir.
Ela foi a primeira a desviar o olhar. Devia fazer perguntas, concentrar-se na histria que iria escrever. Movimentou a cabea negativamente, tentando banir a emoo que sentia.
 Tem razo  concordou.  Diga-me, est trabalhando num novo livro?
 Estou acabando  Pearce respondeu.
Cathy notou que, como j no falavam mais sobre Patty, Pearce gostaria que ela o deixasse em paz. Podia sentir a tenso do corpo msculo. Mas, apesar daquilo, ou talvez por causa daquilo, ela deliberadamente hesitou e olhou ao redor, pousando os olhos nas prateleiras repletas de livros.
	Gosta realmente de escrever  comentou, levantando-se e aproximando-se da estante. Encontrou o ltimo livro que ele escrevera, Teoria de um Assassinato, e pegou-o.  No li este. Tornou-se roteiro de um filme, no?
	Exato. Leve-o, se quiser.
	Obrigada.  Cathy sorriu, mas no fez nenhuma meno de sair do escritrio.  Tenho de confessar que s li alguns livros de sua autoria.
	No  todo mundo que considera histrias sobre assassinatos e tramas polticas como uma leitura de entretenimento.
	E que no tenho muito tempo para ler, por isso escolho leituras menos pesadas.
	Romances?
	, romances. Um de meus preferidos  Orgulho e Preconceito. O senhor no coloca romance em seus livros. Por qu?
Aquela era uma pergunta que Cathy faria, se o estivesse entrevistando, por isso esperou ansiosa pela resposta.
	Amor  uma emoo poderosa  Pearce respondeu.  Uso-o ocasionalmente. Clarissa, por exemplo, em Inferno sem Fria, foi conduzida pelo desejo. Aquilo cegou-a e transformou-a de uma mulher comum a uma assassina de sangue-frio.
	, li esse livro.  Cathy ficou arrepiada ao recordar as cenas de morte.  Achei-o muito bom. Seu heri... ele no se interessava por amor.
	Ele tinha alguns impulsos repentinos.
	Concordo. H sexo em seus livros, mas no  o mesmo que amor, ?
	No?
	Ele no se apaixonou por ningum. No houve um final feliz.
	No. Mas s vezes a vida  assim.
Cathy lembrou-se de que Henri havia dito que Pearce amara e perdera algum.
	Esse  um comentrio triste  disse.
	E? Acho que  uma declarao realista.
	Quer dizer que no  um homem romntico?
	Sou um escritor, srta. Fielding, e gosto do meu trabalho... Quando me permitem faz-lo.
Cathy sabia que ele queria que ela sasse do escritrio, mas no ia desistir com facilidade.
 Estou pertubando-o?  perguntou docemente, lanando-lhe um olhar sedutor.
Por um momento, os olhos de Pearce percorreram seu corpo com interesse. Aquela atitude fez com que Cathy ficasse arrepiada.
 Est  ele respondeu.
O som da campainha do telefone surpreendeu-os. Pearce pegou o fone rapidamente. Cathy ficou parada onde estava, observando-o. Obviamente no era do hospital porque ele relaxou ao ouvir a voz da pessoa do outro lado da linha.
 No, John, ainda no h novidades  Pearce declarou.  Liguei para o hospital agora  noite,
e as condies dela no mudaram.  Passou a mo nos cabelos.  Eu sei,  terrvel. Pensei em
voar at l... No sei o que fazer. E uma longa viagem, e Patty...
Olhou para Cathy, ento cobriu o bocal do fone com a mo e murmurou:
	No tem nada para fazer?
	Tenho, sim.
Cathy saiu devagar, para poder ouvir um pouco mais da conversa.
 Patty est bem  Pearce falou.  Eu...  Cobriu o bocal mais uma vez.  Srta. Fielding,
por favor, saia.
Pearce Tyrone no perdia tempo tentando ser educado. Cathy recordou o olhar sedutor com que o fitara havia pouco. Movimentou a cabea negativamente, censurando-se. Tentar flertar com Pearce Tyrone era como tentar brincar com uma pantera.
Saiu, fechou a porta atrs de si e subiu a escada. Foi s ela aparecer na porta do quarto, para Patty comear a chorar.
 Qual o problema, querida?  Cathy perguntou, inclinando-se sobre o bero.
A menina estava quente e com as bochechas avermelhadas. Cathy colocou a palma da mo na testa dela e ficou aliviada ao ver que a criana no estava com febre. Gentilmente, pegou-a no colo.
 Vamos colocar uma roupa mais fresquinha e trocar a fralda  murmurou, colocando a criana
no trocador.
Patty parou de chorar assim que Cathy tirou-lhe a fralda.
Pobre criana, Cathy pensou e rezou para que Jody Sterling se recuperasse.
Afastou um cachinho de cabelos da testa de Patty. Pelo menos, a criana tinha um pai afetuoso. Cathy no tinha dvidas de que Pearce era o pai. Por que outro motivo o beb estaria naquela casa?
 Gosta de ficar sem a fralda, no ?  Cathy indagou com doura.  Gosta, sim.
Por que os bebs faziam com que as pessoas conversassem com eles num tom de voz ridculo? Cathy abriu um sorriso ao erguer a menina e coloc-la sobre uma toalha felpuda e seca para ento pegar o talco e o creme contra assaduras. Era divertido cuidar de uma criana. No tanto como deitar-se de biquni numa espreguiadeira e aproveitar o sol, mas era uma nova experincia.
Comeou a cantar uma cano infantil. Ao lado de uma criana, as pessoas podiam esquecer todas as inibies e serem elas mesmas.
Polvilhou talco no bumbum do beb, s que no percebeu que a tampa estava muito aberta, e, consequentemente, o p espalhou-se por todos os lados.
 Oh, que beleza!  murmurou com ironia, ao ver que havia cado talco at em suas pernas. 
Que maravilha.
Patty balanou as perninhas e os bracinhos.
 Pode rir de mim agora...  Cathy falou.
 Tudo bem, srta. Fielding?  Pearce indagou.
Cathy olhou ao redor, aturdida por ter sido flagrada no meio daquela desordem.
	Est tudo bem, obrigada  respondeu.
	Achei que tinha ouvido Patty chorar.
	Ela estava com calor. Vou colocar uma roupinha mais fresca.
Enquanto Cathy falava, pegava outra toalha e uma fralda. Queria que Pearce sasse do quarto, pois seus nervos estavam  flor da pele com aquela observao insistente. Mas, em vez de sair, ele se aproximou e parou ao lado dela.
Cathy pressionou as fitas adesivas da fralda, porm, como que para enfurec-la, elas se soltaram. Patty mexeu as perninhas, como se estivesse mostrando que adorava liberdade. Pearce prestava ateno na cena. Cathy tentou fechar a fralda mais uma vez, mas no conseguiu.
 Deve ter deixado cair talco na fita adesiva  ele comentou. Venha aqui, querida.  Puxou
Patty para perto de si e pegou uma nova fralda.
Cathy observou, com uma mistura de aborrecimento e admirao, a fralda fechar-se perfeitamente.
	Pronto  ele disse, sorrindo.
	Eu estava indo muito bem, antes de o senhor aparecer.
	Percebi.
Pearce fitou-a como se estivesse fascinado. O modo como ele a observava fez com que o corao dela batesse acelerado.
 Tem talco no nariz  Pearce falou.
 Oh!
Aquela declarao pegou-a de surpresa. Cathy pensava que ele a olhava daquele jeito por admirar sua beleza, mas provavelmente Pearce a via como uma das mulheres mais atrapalhadas que j conhecera.
Antes que ela pudesse erguer a mo para tirar o talco do nariz, ele se antecipou.
 Assim  melhor  Pearce murmurou.  Tem um bonito nariz.  Pousou brevemente o olhar
nos lbios delicados.  Um rosto muito bonito tambm.
Por alguns loucos segundos, Cathy acreditou que ele fosse dizer algo mais ntimo. Passou a lngua nos lbios. No compreendia a sbita tenso entre eles.
Estava naquela casa para conseguir uma reportagem. No podia sentir qualquer tipo de atrao por ele. No era correto. Pearce afastou-se.
	Bem, suponho que essa pequena senhorita possa voltar para o bero  falou.
	Vou escolher um pijaminha leve.
Cathy tentou manter a voz natural, como se nada tivesse acontecido, mas percebeu que falara em tom quase desesperado.
Notou carinho rios olhos de Pearce, quando ele segurou Patty para que ela pudesse vesti-la.
 Agora ela est arrumadinha  comentou ao deitar a menina no bero e dar-lhe um beijo na
testa.
A criana parecia sonolenta.
 Oh, Deus, espero que Jody se recupere  Pearce murmurou com tristeza.
 Eu tambm. Essa garotinha vai precisar de uma me.
Pearce fitou-a e sorriu.
 s vezes, Cathy Fielding, voc  uma boa pessoa  disse.
Ela sentiu as faces enrubescerem.
 No precisa mostrar-se to surpreso  falou.  Sou uma boa pessoa.
Ele sorriu e olhou para Patty, ento caminhou na direo da porta.
 Estarei no meu escritrio, caso precise de alguma coisa  avisou.
Por um longo tempo, depois que Pearce se retirou do quarto, Cathy ficou observando Patty dormir.
"Vi carinho nos olhos dele, pensou. Ele est apaixonado por Jody Sterling. Est mais do que evidente que se preocupa muito com ela".
Passou a mo nos cabelos e ficou aflita ao recordar sua reao  proximidade dele. No podia perder tempo com flertes. Respirou fundo. Antes que Patty comeasse a chorar, decidiu tirar fotos da casa. Para provar a si mesma que tinha a situao sob controle e que seu julgamento no estava sofrendo nenhuma influncia emocional. Afastou-se do bero e foi buscar a cmera fotogrfica na cmoda.
As batidas de seu corao aceleravam-se cada vez que ela abria uma porta diferente. Viu que todos os aposentos eram amplos e bem decorados, mas impessoais. At que abriu a porta oposta ao quarto de Patty e descobriu que ali era o quarto de Pearce.
A decorao era totalmente masculina. Uma cama enorme, mveis em madeira de lei, quadros modernos nas paredes e dois porta-retratos sobre o criado-mudo.
Trmula, Cathy fechou a porta e pegou a cmera fotogrfica. Tirou algumas fotos da cama e aproximou-se dos porta-retratos.
Uma foto era de um beb recm-nascido, outra, de uma jovem e atraente loira. Cathy segurou o porta-retrato com a foto da loira, tentando descobrir se era Jody Sterling. Tinha quase certeza de que era, mas ficava difcil afirmar, porque Jody era atriz e mudava de aparncia a cada trabalho.
Fotografou o criado-mudo, ento decidiu sair do quarto. Voltou para o aposento de Patty, onde guardou a cmera num lugar seguro. De sbito, a campainha do porto tocou.
Cathy olhou ansiosamente para Patty, torcendo para que o barulho no a tivesse acordado. Ajeitou o lenol e observou-a por mais alguns segundos, antes de descer para ver quem era.
Mas parou no meio da escada, porque Pearce j abrira o porto, permitindo que um carro esporte vermelho entrasse e estacionasse diante da casa. Sara, deixando a porta aberta, e Cathy viu uma mulher de uns trinta anos de idade aparecer. Era alta, atraente, possua cabelos pretos cacheados, curtos, e vestia um conjunto azul-marinho.
	Laura, que adorvel surpresa!  Pearce exclamou.  Achei que tinha ido para Nova York.
	Bem, querido, teria ido, se o aeroporto no estivesse um caos, com todos os vos atrasados  Laura respondeu e o beijou.
Cathy estava na escada, e no saberia dizer se a mulher beijara Pearce na face ou na boca.
	Novidades quanto a situao de Jody?  Laura perguntou.
	Nenhuma.
	E Patty? A viagem de Paris at aqui no a irritou?
	Nem um pouco. Foi quando chegamos aqui que comeamos a ter problemas. Ela no parava de chorar.  Pearce envolveu os ombros de Laura com um brao.  Venha, vamos conversar.
Quando se viraram, ele olhou para a escada.
 Tudo bem, srta. Fielding?  indagou.
Cathy levou alguns instantes para responder.
Saiu das sombras e tentou fingir que estava descendo os degraus, em vez de estar escutando a conversa.
 Tudo bem, sr. Tyrone.
Pearce sorriu, e Cathy teve a distinta impresso de que ele sabia que ela estivera bisbilhotando.
	Pode trazer duas xcaras de caf?  ele pediu.
	Claro.
Pearce e Laura entraram na sala de estar, e a porta fechou-se. Quando Cathy levou para l uma bandeja com duas xcaras de caf, encontrou Laura deitada num dos sofs de couro, sem os sapatos.
Pearce estava sentado na frente da lareira, com um copo de conhaque na mo, dizendo algo que fazia Laura rir. Cathy percebeu que havia grande intimidade entre eles.
 Obrigado  Pearce agradeceu, levantando-se da poltrona e tomando a bandeja das mos de
Cathy.  Laura Houston, conhea a bab de Patty, Catherine Fielding. No sei o que faria esta tarde, sem ela.
	 mesmo?  Laura observou Cathy de cima a baixo.  Voc no parece uma bab.
	No? Como devem ser as babs?  Cathy indagou e ficou surpresa com o tom rspido de sua voz.
	Bem...  Laura movimentou a cabea negativamente.  Tem razo, foi uma grande besteira o que eu disse.  que voc  muito bonita.
Cathy sorriu.
 Obrigada  agradeceu.  Voc tambm . 
Olhou para Pearce e sentiu-se desconcertada ao ver um brilho diferente nos olhos pretos.
 Laura  minha empresria  ele falou.
De repente, Cathy percebeu quem era aquela morena. Laura Houston, empresria da maior parte dos escritores de sucesso, uma mulher poderosa no meio editorial.
	Est fazendo com que eu parea uma chata, querido!  protestou Laura.  Tambm nos divertimos, no?
	s vezes, jantamos juntos  Pearce declarou pacientemente, como se j estivesse acostumado com aquele ar sedutor de Laura.
"Deve estar acostumado a ser cortejado por muitas mulheres", Cathy pensou, recordando que cometera aquele mesmo "pecado".
Laura pegou uma xcara de caf.
 Bem, como estou forada a ficar em minha casa por alguns dias, decidi dar uma festa  falou.
 Ser amanh  noite, s oito.
Cathy caminhou vagarosamente na direo da porta para que pudesse ouvir a resposta de Pearce.
	No posso ir  ele disse com firmeza.  Primeiro, porque no gosto de festas, segundo porque no posso deixar Patty.
	Voc precisa se distrair! E agora Patty tem uma bab que poder cuidar bem cuidar dela.
	No quero deix-la, mesmo assim. Patty  muito preciosa para mim. Por favor, tente entender.
Cathy olhou-o por sobre o ombro, com a mo na maaneta. Tinha gostado daquela atitude dele. Pearce fitou-a.
 Boa noite  ela se despediu, sorrindo e sentindo o corao bater violentamente no peito.

CAPITULO IV

Apesar de estar quase nua sob os lenis, Cathy suava. Estava muito cansada, mas no conseguia dormir. A casa encontrava-se com as luzes apagadas, e o silncio que imperava era enervante.
Cathy pensou em como se sentira em relao a Pearce. Adorara o modo como ele pusera fralda na menina, talvez porque a maioria dos pais achasse aquilo uma tarefa difcil. Lembrou-se da irm mais velha, Eva, que aos dezesseis anos assumira a responsabilidade de cri-la e sara-se muito bem.
Livrou-se do lenol e olhou para o relgio sobre o criado-mudo. Eram quase trs horas da madrugada. Se ia ficar acordada, era melhor pensar no artigo que escreveria a respeito de Pearce, em vez de se emocionar com lembranas.
Laura Houston deixara a casa pouco depois de ter tomado sua xcara de caf. Cathy ouvira a sua voz na porta da frente, ainda tentando convencer Pearce a ir  festa.
Sorriu ao recordar a resposta que a empresria recebera. Ele no era um homem fcil de ser convencido. Cathy gostava daquilo, assim como gostava da maneira como ele conversava com Patty.
Saiu da cama e abriu a janela. Apoiou-se no parapeito. Era noite de lua cheia. Cathy podia ouvir o som do mar Mediterrneo. Londres e sua vida movimentada no jornal estavam a quilmetros de distncia dali.
Havia momentos, e aquele era um daqueles, em que ela pensava em largar o emprego e mudar-se para um lugar de clima tropical. Mas, como a irm no cansava de dizer, e com sabedoria, Cathy era casada com a carreira.
Cathy j tivera um homem especial em sua vida. David Collins era fotgrafo jornalstico. Eles se conheceram num evento em Singapura. David era muito charmoso, e Cathy pensara que estava completamente apaixonada. Ficarem noivos fora um terrvel engano, e o relacionamento acabara mal. 
Agora, ela no desejava mais relacionamentos profundos. No precisava de ningum, no queria que sua felicidade dependesse de algum. Com rarssimas excees, geralmente os homens costumavam desvalorizar as mulheres. Era melhor ser auto-suficiente.
O choro do beb quebrou o silncio. Esquecendo-se de que estava apenas de calcinha e combinao de seda branca, Cathy atravessou a porta de ligao entre seu quarto e o de Patty e aproximou-se do bero.
	O que foi, querida?  indagou.  Venha. Pegou a menininha no colo.
	No entendo muito de bebs, mas sei que no se deve peg-los no colo cada vez que choram  Pearce falou atrs dela.
Cathy sentiu-se horrorizada e embaraada. Pearce no tinha o direito -de entrar naquele aposento quando bem entendesse. Ela estava praticamente nua! O tecido da combinao era transparente!
Por alguns segundos, ficou paralisada, sem saber ao certo o que fazer ou o que dizer. Devia virar-se e segurar Patty como um escudo, ou ficar de costas? Olhou o lenol que estava no bero e pegou-o, cobrindo a criana e a si mesma.
 Como ousa entrar em meu quarto assim?  questionou, virando-se.
Pearce estava encostado no batente da porta.
 Este no  seu quarto  respondeu com tranqilidade.  Seu quarto  aquele ali.
Apontou para a porta de ligao.
 Bem, ainda assim no tem o direito de entrar aqui a esta hora da noite  Cathy insistiu.
Suas faces queimavam de vergonha e indignao sob o olhar intenso dele. Pearce fitou as pernas bem torneadas, as curvas dos quadris e a cintura delgada. Cathy pressionou a criana nervosamente contra os seios.
	E voc no tem o direito de andar pela casa vestida dessa maneira  ele replicou.
	No estou andando pela casa, estou no quarto de Patty. Est me acusando de querer provoc-lo?
  normal ficar no quarto de uma criana, quase nua?  Pearce olhou as faces aveludadas
e os cabelos loiros sedosos.  No me admira ter tido problemas com antigos patres.
 Nunca tive problemas com nenhum patro  Cathy retrucou.
Pearce devia achar que ela estava querendo seduzi-lo. Ela estava vestida daquela maneira porque no tinha uma camisola, muito menos um penhoar. Mas o modo como ela estava vestida no importava. Ele no deveria estar ali.
	No  a impresso que tenho  ele replicou.  Entrar aqui, seminua, faz com que eu presuma...
	Presume demais, sr. Tyrone. Para sua informao, esqueci de trazer minha camisola e meu penhoar, mas se eu soubesse que voc entraria aqui no meio da noite, teria trazido uma armadura. Agora, se no se incomoda, gostaria que sasse para que eu possa atender Patty.
Por alguns momentos, Pearce mostrou-se espantado, mas, para surpresa de Cathy, saiu do quarto. Patty tinha parado de chorar, mas resmungava, mostrando-se agitada e descontente. Cathy colocou a mo numa das bochechas e surpreendeu-se ao sentir a temperatura elevada. Foi um enorme alvio quando Pearce voltou.
	Tome  ele falou.  Para o bem de ns dois, vista isto.
	Obrigada.
Cathy no fez meno de pegar o robe. Seu embarao e sua inquietao misturavam-se com ansiedade pela criana.
 Estou preocupada com Patty  declarou.  Parece que est ardendo em febre.
Pearce aproximou-se e pousou a mo na testa da criana.
	Ela est fervendo  comentou.
	O que ?
	No sei, mas temos de descobrir, e logo. D-a para mim e vista o robe.
Cathy movimentou a cabea afirmativamente, ento hesitou ao perceber que deixaria seu corpo exposto ao entregar Patty.
	Fecho os olhos  Pearce disse com aspereza, ao notar seu olhar consternado.
	Obrigada.
Cathy pegou o robe e entregou-lhe o beb. Pearce, de olhos fechados, virou-se, e ela vestiu o discreto e enorme robe. Era bvio que aquela roupa era dele, e, como que para confirmar, ela sentiu o perfume de uma colnia masculina.
 Sequinha  ele informou, apalpando o traseirinho da menina.  Qual o problema, pequenina?
Patty comeou a chorar, em seguida virou a cabea de um lado para o outro, colocando as mozinhas na boca.
	Dentes!  Pearce e Cathy exclamaram ao mesmo tempo, em seguida sorriram e entreolharam-se, aliviados.
	Acho que temos gel analgsico no armrio  Cathy disse, apressando-se em ir procurar o remdio.  Vi-o quando...  Parou de falar ao recordar que fora quando estivera tirando as fotos. Ento, continuou:  Eu vi, quando estava me familiarizando com o lugar.
Achou o gel e virou-se, notando que Pearce a observava atentamente.
 Aqui est  disse.
Tinha certeza de que ele no percebera sua breve hesitao, mas, mesmo que houvesse percebido, no teria a mnima idia do que ela estava escondendo. Mesmo assim, ele a olhava com ar especulativo. Talvez estivesse pensando em como uma bab profissional no percebera que o problema de Patty era a dentio.
Pearce embalou a menina nos braos, enquanto Cathy passava o gel nas gengivas vermelhas. Cathy sentiu alguns dentinhos apontando, ao aplicar o remdio.
 Pobrezinha  murmurou.  Est to agoniada!
Patty parara de chorar. Cathy percebeu que Pearce parecia cansado e que ainda no vestira um pijama.
	J terminou de trabalhar?  ela indagou.
	Terminei. Estava pensando em trabalhar muito  noite, para poder passar mais tempo com Patty durante o dia.
	No deve exagerar  ela aconselhou.  Se entregar Patty para mim, vou tentar fazer com que volte a dormir. No h motivo para ns dois ficarmos acordados.
	Tambm acho. Pode voltar para a cama e deixar Patty comigo.
Cathy franziu a testa.
 Mas cuidar dela  meu trabalho  observou. Ao pronunciar aquela frase, lembrou-se de que no era uma bab de verdade. Estava naquela casa para obter uma histria, no para passar a noite acordada com uma criana. No entanto, relutava em deixar Patty.
	Voc  boa com crianas  Pearce disse.  Estou surpreso por no haver se casado e tido filhos.
	Nunca conheci ningum que eu amasse a ponto de me casar.
Ele ergueu as sobrancelhas, como se no estivesse acreditando.
  verdade  Cathy afirmou, olhando para Patty.
A menina j estava sonolenta, com os olhinhos quase se fechando. Parecia um anjo, com aquelas bochechas coradas e os cabelos loiros cacheados.
	Uma vez, cheguei perto do casamento  Cathy contou.  Fiquei noiva, mas descobri a tempo o grande erro que ia cometer.
	Por que seria um erro?
	Porque ele no me amava. Tnhamos muito em comum, s que ele no gostava de crianas e eu queria ter uma famlia. Oh,  uma histria muito entediante.
Perguntou-se por que havia-contado aquilo. Fazia anos que no conversava sobre David.
 No acho nada entediante  Pearce disse num tom de voz gentil e encorajador.
Cathy afastou-se.
	A madrugada nos faz dizer bobagens  declarou.
	Essas horas antes do amanhecer  que so boas para contar segredos.
	Posso fazer uma pergunta?
	Pode, mas no prometo que vou responder.
	Henri mencionou que voc perdeu algum que amava. A quem ele estava se referindo?
	Bem, meu pai morreu h poucos anos  Pearce contou, em seguida olhou pela janela.  Mas presumo que Henri estivesse se referindo a minha esposa.
 Eu no sabia que foi casado.
Ele virou-se e encarou-a.
	Foi h muito tempo  murmurou.  Antes de eu me tornar escritor.
	O que aconteceu?
	Sarah e eu ramos bilogos marinhos. Ns nos conhecemos na China, numa ilha remota chamada Sujai.
O tom de voz de Pearce era distante, como se ele no estivesse se concentrando no que dizia.
 Fomos mandados para l por nossas respectivas empresas, para estudar um tipo de molusco,
peculiar quelas guas profundas  ele prosseguiu.  Sujai era um lugar mgico, vulcnico,
belo, inacreditvel. 
Suspirou.
	Sarah era linda  continuou.  Espontnea, honesta, divertida. Apaixonei-me  primeira vista, e nos casamos meses depois, l mesmo.
	Parece muito romntico.
	Foi, e tivemos seis semanas de lua-de-mel. A, aconteceu o acidente. Sarah teve problemas com seu equipamento de mergulho e estava muito longe da orla. Eles no conseguiram alcan-la a tempo.
	Voc estava l quando ocorreu?
Pearce movimentou a cabea negativamente.
 Tinha pego um vo para a Austrlia, para entregar uns relatrios em minha empresa  disse.  Sempre achei que se estivesse l, talvez...
Respirou fundo.
	Sabe, voc tem razo  falou.  A madrugada faz com que digamos bobagens. Faz tempo que no falo no nome de Sarah.
	Talvez precisasse desabafar. Dizem que ajuda a diminuir a dor.
Ele franziu a testa.
	No acho que desabafar ajude  retrucou.  E mais uma coisa: eu mal a conheo.
	No se esquea de que tambm nunca faz amizade com empregados.
Pearce sorriu.
 Talvez devamos esquecer isso, no acha?  sugeriu.
De sbito, a atmosfera entre eles ficou carregada de emoo.
 Talvez eu deva ir dormir  Cathy falou depressa, ento olhou para Patty, que j havia
adormecido nos braos musculosos.  Boa noite, Pearce.
Percebeu, tarde demais, que o chamara pelo primeiro nome.
 Boa noite, Catherine. 
Ao entrar no quarto, Cathy sentou-se na cama.
A seu lado, no criado-mudo, havia uma caneta e um bloco de papel, onde fizera algumas anotaes sobre Pearce. Tinha muito o que acrescentar agora. O breve casamento seria uma revelao.
Cathy olhou para o bloco, mas no o pegou. Tirou o robe e deitou-se. Por nenhuma razo aparente, comeou a refletir que Pearce apaixonara-se pela esposa porque ela era honesta.

CAPITULO V

Cathy nunca tinha se sentido daquele jeito em Londres. Observou o dia pela janela da cozinha, encostada na pia. Era segunda-feira de manh, o sol brilhava sobre as guas da piscina e, a distncia, as montanhas pareciam cor de prpura contra o brilhante azul do cu.
Henri estava plantando algumas novas mudas no jardim e, ao ver Cathy, acenou. Patty balbuciou alegremente em sua cadeirinha e bateu a mamadeira na mesa repetidas vezes.
 No. faa isso, querida  Cathy pediu, tirando o objeto das mos dela.
Ao virar-se, seus olhos pousaram no telefone de parede. Tinha certeza de que Mike estava aguardando um contato. Ele devia estar ansioso para saber o que ela havia descoberto. Cathy respirou fundo. No ousava ligar dali, pois tinha conscincia de que era muito arriscado.
Pearce apareceu na porta. Usava cala de sarja azul-marinho e camiseta bege. Apesar de ter ido dormir tarde da noite, parecia bem-disposto.
 Bom dia  cumprimentou, acariciando os cabelos de Patty, em seguida acomodou-se  mesa.  Como ela est?
	Patty est bem  Cathy respondeu, colocando na mesa uma garrafa de caf fresco.  Ela comeu todo o mingau e parece de bom humor.
	timo.
Pearce olhou de Patty para Cathy, examinando-a de cima a baixo, fazendo com que ela desejasse estar usando outra roupa, em vez daquele mesmo vestido branco do dia anterior.
	E como voc est?  ele perguntou.  Cansada?
	No, j estou totalmente recuperada  ela respondeu, prendendo uma mecha de cabelos atrs da orelha e tentando dar um tom formal  voz.  Vou preparar algo para o senhor comer. Coloquei a lista do que estou precisando por aqui, em algum lugar...
	No se incomode. S quero caf.  Ele apontou para a cadeira oposta a sua.  Por que no relaxa e me faz companhia? Outra coisa, pare de me chamar de "senhor".
Cathy sentou-se e observou-o despejar caf em duas xcaras.
 Henri j tomou caf?  ele indagou.
 Levei-lhe uma xcara, logo que ele chegou.
Era uma sensao agradvel para Cathy, sentar-se  mesa com Pearce e Patty. Era como se ela fizesse parte da famlia. De sbito, relembrou que estava naquela casa para espionar e escrever uma matria reveladora para o jornal.
 Achei Laura Houston muito simptica  comentou, tentando convencer-se de que sua prioridade era o artigo para o jornal.
	Achou?  Pearce repetiu, parecendo desinteressado.
	Achei. Voc a conhece h muito tempo?
	H anos. Ela  minha empresria. Tem uma casa no muito longe daqui e tambm somos vizinhos em Londres. Eu a vejo muitas vezes.
O toque do telefone interrompeu-os, e Pearce levantou-se para atender. Por alguns segundos, s falou a pessoa que tinha telefonado, at que ele disse, aliviado:
 Que notcia maravilhosa!
Cathy concluiu que era algum do hospital falando sobre Jody Sterling.
	Entendo... Tudo bem, telefone esta noite  ele concordou, colocando o fone no gancho e voltando a sentar-se  mesa com um amplo sorriso nos lbios.  Jody saiu do estado de coma.
	Graas a Deus!  Cathy exclamou, ento inclinou-se na direo de Patty.  Ouviu? Sua mame est melhorando. Ela vir para casa em breve.
Patty sorriu e mexeu braos e pernas como se houvesse entendido cada palavra. Cathy estava aliviada e feliz.
	Quer dizer que logo teremos a srta. Sterling em casa?  perguntou.
	Daqui a alguns dias. Os mdicos esto esperanosos quanto a uma total recuperao, pois os sinais vitais esto timos.
	Voc deve estar muito aliviado...
	Estou. S queria poder v-la.  Pearce passou a mo nos cabelos e. bufou, frustrado.  Se no fosse por essa greve no aeroporto, eu voaria para l agora mesmo.
Uma estranha emoo tomou conta de Cathy. Ela no compreendia aquele sentimento. Estava feliz pela recuperao de Jody, mas ao perceber o grande carinho que Pearce tinha pela atriz, invejou-a.
Pearce olhou para o relgio de pulso e levantou-se.
 Tenho que dar alguns telefonemas antes de irmos a Antibes  declarou.
De imediato, Cathy ficou nervosa. No queria que ele a acompanhasse  cidade. Precisava de tempo para telefonar para Mike e pegar seus pertences no hotel. Ir com Pearce complicaria a situao.
	Acha que podemos levar Patty?  indagou.  Na minha opinio, o calor, dentro do carro, deve estar insuportvel, e no  necessrio que voc v. Posso voltar daqui a...
	Meu carro tem ar-condicionado, e tenho negcios a tratar em Antibes.
Cathy percebeu que no adiantava discutir com Pearce, quando ele tomava uma deciso, por isso apenas encolheu os ombros. Passou a pensar num meio de se perder dele em Antibes, pois se ele a visse entrando no hotel, ficaria desconfiado.
 Venha, querida  Pearce disse com carinho, pegando Patty no colo.  Pode me fazer companhia, enquanto telefono para algumas pessoas. Beijou a menina na testa. Cathy observou-os sair, tentando ignorar as batidas rpidas e descontroladas de seu corao. Levantou-se da mesa e suspirou. Havia uma nuvem de complexas emoes pairando em seu corao. Ela nem se atrevia a entend-las. Tudo o que sabia era que no devia deix-las fugir de controle, ou no conseguiria sua matria.
Colocou os utenslios usados no caf da manh na mquina de lavar louas. Depois, preparou uma mamadeira para Patty, caso ela sentisse fome enquanto estivessem fora.
Quando saiu da cozinha, o primeiro som que ouviu foi a risada da menininha. Curiosa, seguiu na direo do escritrio de Pearce.
Encontrou a porta aberta e entrou vagarosamente. Pearce estava sentado em sua cadeira, com Patty nos joelhos, balanando-a para cima e para baixo. A criana estava adorando aquela brincadeira. Cada vez que Pearce parava, ela balbuciava em tom de protesto, at que o balano reiniciava e ela ria, deliciada.
Cathy notou como Pearce segurava a criana cuidadosamente e o modo como ele sorria.
	Parece que esto se divertindo  comentou, assim que Pearce notou sua presena.
	Estamos  ele afirmou.  Entre.
Cathy desejou que ele no sorrisse daquela maneira, pois ela se sentia derreter.
	J fez seus telefonemas?  indagou, aproximando-se da mesa e tentando parecer indiferente.
	J.
Ao levantar-se, Pearce derrubou um livro que estava sobre a mesa. Cathy impulsivamente pegou-o e leu o ttulo: Criana Moderna.
 Fazendo pesquisas?  perguntou.
 Quando se  novato, como eu, toda ajuda  bem-vinda.
Ser que esse Pearce  o mesmo homem frio e indiferente de ontem? Cathy indagou-se.
Folheou algumas pginas do livro, notando que havia um marcador no captulo referente  dentio.
	Voc me surpreende, Pearce Tyrone.
	Por qu?
 No imaginava que um homem to ocupado quanto voc tivesse tempo para ler sobre bebs.
Ele sorriu.
	Essa  uma declarao discriminatria  declarou.
	Talvez.
Quanto mais ela conhecia Pearce, mais gostava dele. E mais acreditava que Jody Sterling era uma mulher de sorte. Fitou-o bem dentro dos olhos e sentiu um arrepio. 
 Podemos ir at Antibes agora?  indagou, afastando-se da mesa, sentindo pelo corpo sinais que indicavam inquietao.
Estou aqui a trabalho, disse a si mesma com determinao. Diante das circunstncias, no posso me envolver emocionalmente, de jeito nenhum.
Meia hora depois, Cathy acomodava-se no banco do passageiro da Mercedes de Pearce, depois de ajeitar Patty na cadeirinha, no assento traseiro. Ento, os trs seguiram para Antibes. Estava um dia lindo e no havia nenhuma nuvem no cu azul.
Pegaram uma estrada diferente daquela que Cathy seguira para chegar  casa de Pearce. Ela apreciava a vista, observava as alfazemas e as outras flores das quais no sabia o nome, plantadas nos jardins das casas, mostrando que por ali a modernidade desenfreada ainda no chegara.
  to lindo...  murmurou.
Pearce fitou-a e diminuiu a velocidade do carro.
 Um dos mais belos lugares do mundo  falou.  Teve a oportunidade de passear por a, quando trabalhava na casa da outra famlia?
Cathy movimentou a cabea negativamente.
	 uma pena  ele disse.
	Passear no  algo que se possa fazer com freqncia, quando se  bab.
Pearce fitou-a de soslaio.
	Quantos dias de folga seu antigo patro lhe dava?  perguntou.
	Mais do que voc.
	Se eles eram to maravilhosos, por que os deixou?
"Ele j me perguntou isso", Cathy comentou consigo mesma. "Deus, detesto mentir. Sou pssima nisso".
	A criana de quem eu cuidava chegou  idade escolar, por isso meus servios j no eram mais necessrios  respondeu.
	Entendo. Famlia inglesa, no? Talvez eu os conhea.
	Acho que no.
Dizia a si mesma que no devia ter comeado aquela farsa. Devia ter dito que viera direto de Londres e que tinha perdido a bagagem.
	Por que no? Tenho alguns amigos que moram em Antibes  Pearce declarou.
	Essas pessoas so francesas.
 Tenho muitos amigos franceses. Qual era o nome deles?
Cathy no sabia o que responder. No conseguia pensar num sobrenome francs.
	Perguntei qual era o nome deles  ele insistiu.
	Dubonnet.
	Dubonnet? Pearce sorriu.
	, como aquela bebida  ela afirmou.
 Quanto tempo trabalhou para a famlia Dubonnet?
Cathy no acreditava que havia escolhido o nome de uma bebida.
	Um ano  respondeu.
	Deve falar muito bem francs  ele presumiu, falando em francs.
	No muito  ela respondeu tambm na mesma lngua, quase sem nenhum sotaque.
Deu graas a Deus por ter estudado francs numa escola de lnguas. Pearce parou o veculo num cruzamento, e Cathy aproveitou a oportunidade para mudar de assunto.
 Onde aconteceu o acidente com Jody Sterling?  ela perguntou.
Sabia muito bem que Jody batera o carro em Paris, mas aquele foi o jeito que encontrou de iniciar uma nova conversa.
	No l jornais?  Pearce questionou com aspereza.
	No muito.
	Eu no a culpo.  Ele passou a mo nos cabelos.  De vez em quando, no se pode acreditar em nem uma palavra sequer do que eles escrevem. Acredito que a metade desses reprteres venderiam a av por uma matria.
	No concordo. Acho que os jornalistas deparam-se com muitos problemas, quando procuram a verdade. Se no fosse por eles, o mundo continuaria desconhecendo muitas injustias.
	Mas eles invadem a intimidade das pessoas, sem se importar com a baguna que criam. No  para o bem das pessoas que fazem isso, mas por amor ao dinheiro.
Cathy notou o tom de voz amargurado de Pearce. Com certeza, ele no era um admirador da imprensa. Cathy sentiu um forte sentimento de culpa. Estava invadindo a privacidade de Pearce com uma nica inteno: conseguir uma matria sensacionalista. Aquela no era sua especialidade, no era algo que realmente gostasse de fazer, mas trabalho era trabalho, e ter a conscincia pesada no a ajudaria a pagar as contas no final do ms.
	O acidente com Jody Sterling foi em Paris  Pearce respondeu.
	Oh...
Cathy devia ter aproveitado para fazer mais perguntas, mas seu entusiasmo desaparecera, depois daquela crtica aos jornalistas.
	O que vai acontecer, quando a srta. Sterling sair do hospital?  indagou.  Quero dizer, suponho que no precise mais de uma bab, j que Patty vai voltar a viver com a me. Ou a srta. Sterling vai ficar aqui at se recuperar?
	Eu esperava que voc perguntasse isso.
	Esperava? Por qu?
	Porque  claro que deve se preocupar com seu trabalho.
	Preciso me preocupar, neste caso?
Pearce hesitou por alguns segundos, ento sorriu.
	Calma, vamos viver um dia de cada vez  disse.
	Bem, preciso saber. Digo,  necessrio que me avise a tempo de eu poder entrar em contato com a agncia e...
	No se preocupe, srta. Fielding. Saber de tudo quando chegar a hora.
Quando chegasse a hora de partir, Pearce saberia que ela na verdade era uma reprter.
 Pode me chamar de Catherine, como j fez  ela declarou com suavidade, abrindo um amplo
sorriso.  Soa to formal quando me chama de srta. Fielding!
Na maioria das vezes, quando Cathy falava naquele tom de voz e sorria daquela maneira, os homens davam-se por vencidos. Pearce Tyrone, porm, estava sendo uma exceo. Os olhos pretos estreitaram-se.
	Aprendeu a ser informal, no treinamento para bab?  ele perguntou.
	Ouvi dizer que a escravido acabou.
	Foi por isso que entrou no quarto de Patty seminua?
As faces dela avermelharam-se.
 Como eu j disse, esqueci minha camisola  Cathy declarou.
 Esqueceu.
Pearce parecia no estar convicto daquilo.
Patty comeou a chorar. Cathy virou-se para trs para olh-la.
	Qual o problema?  Pearce indagou, diminuindo a velocidade.
	Est tudo bem  Cathy assegurou.  A chupeta caiu, e ela no consegue pegar.
Pegou a chupeta, que ficara dependurada pela correntinha, e colocou-a na boca da criana. Patty parou de chorar no mesmo instante. No houve mais conversa, at chegarem em Antibes.
	Qual  o endereo?  Pearce perguntou.
	Endereo?
	Da famlia Dubonnet. Onde eles moram?
	 por ali.  Cathy apontou para uma rua.
	No se preocupe, ensino o caminho.
 No estou preocupado.
Mas Cathy estava. Tinha planejado pedir que ele a deixasse na esquina de uma rua paralela a do hotel e sugeriria para que voltasse meia hora depois.
 Qual o nome da rua?  Pearce indagou pacientemente.
Ela estava com medo de que ele fizesse aquela pergunta. No sabia nenhum nome de rua, apenas a de seu hotel e no pediria para que ele seguisse para l, porque poderia ser muito arriscado. Se ele a visse entrar ou sair do hotel, descobriria a verdade.
 Acredita que no lembro?  Cathy mentiu, franzindo a testa para fingir que estava pensando.
	Mas  por ali. Depois vire a primeira  esquerda.
	No posso virar  esquerda.  contramo.
	Oh, Deus. Pode me deixar aqui. Preciso de meia hora para arrumar minhas coisas e traz-las para c enquanto voc resolve seus negcios.
Cathy torceu para que Pearce no percebesse quanto estava nervosa.
	Isso no faz o menor sentido  ele protestou.  No vou permitir que ande por a com malas pesadas.  Dobrou uma esquina.  Vou seguir esta rua at o final. Qual  o nmero da casa?
	Eu mostrarei.
Eles passaram pela quadra do hotel. Cathy tentava desesperadamente pensar nos possveis nmeros das casas da quadra seguinte.
	Aqui estamos  disse, logo depois de cruzarem a esquina.
	Aqui?  Ele olhou para uma grande casa escondida atrs de altos muros e um porto de ferro.
	, obrigada.  Ela pousou a mo na maaneta.  Pode vir me buscar daqui a meia hora?
	Vou esper-la.
Para horror de Cathy, ele desligou o motor do Mercedes.
	Oh, no, no!  ela exclamou, aflita. Detesto v-lo sentado aqui me esperando.  pura perda de tempo. V e resolva seus negcios.
	No  problema algum ficar esperando por alguns minutos  ele argumentou, acomodando-se no banco.  Tenho certeza de que no vai levar meia hora para juntar suas coisas.
	Oh, claro que levarei. Tenho muitas roupas e...
	V, Catherine, ou ficaremos sentados aqui o dia inteiro.
Cathy no tinha mais como discutir. Desceu do carro e aproximou-se do porto. O que iria fazer? Entrar na casa e deparar-se com um completo estranho? O que diria? Que tinha aparecido para medir o consumo de gua? Pelo menos, Pearce no a veria, se ela conseguisse chegar  porta da frente.
Como ser que esses portes abrem?, indagou-se, olhando-os cuidadosamente.
	Se apertar a campainha, vo atend-la  Pearce sugeriu com sarcasmo.
	Era o que eu ia fazer.  Cathy respondeu, lanando-lhe um olhar fulminante.
Ele tinha de ficar sentado dentro carro, observando cada movimento seu? Ela respirou fundo, controlou a raiva que sentia e olhou para a campainha.
Nada passa despercebido aos olhos de Pearce Tyrone, comentou consigo mesma, apertando o boto da campainha. Em seguida, o porto abriu-se eletronicamente.
O que diria s pessoas da casa? O que Pearce diria, se ela voltasse para o carro de mos vazias? Talvez fosse melhor dizer a ele que a famlia Dubonnet fora roubada e que todos os seus pertences haviam sido levados.
Ao entrar na propriedade, condenava-se por ter mentido. "Uma mentirinha leva a outra e, antes que se perceba, estamos dentro de um enorme buraco".
O porto fechou-se.
 Escute, voc tem razo, no h por que eu ficar aqui sentado, esperando!  Pearce gritou, olhando-a por entre as grades do porto e ligando o motor do Mercedes.  Volto daqui a meia hora.
 Tudo bem.
Cathy suspirou, aliviada. Agora, poderia ir ao hotel, fazer as malas e ligar para Mike.
	Posso ajud-la?  um homem idoso, que abrira a porta da frente, perguntou em francs.
	Desculpe, acho que entrei na casa errada.
Cathy ficou parada, enquanto o homem caminhava vagarosamente em sua direo. Explicou que era a primeira vez que se encontrava naquela cidade e que procurava a casa de uma velha amiga. Pediu desculpas e saiu da propriedade.
Pouco depois, entrava no hotel. Tinha quinze minutos para arrumar suas coisas e dar o telefonema. Correu para o quarto e fez a mala o mais rpido que pde, jogando as roupas de qualquer jeito. Consequentemente, foi difcil fech-la. Forou o fecho, sentando-se em cima da mala, ao mesmo tempo em que discava para Mike.
	Cathy, onde esteve?  o editor perguntou, furioso.  Venho tentando entrar em contato com voc h horas.
	Estou morando na casa de Pearce Tyrone. Como bab de Patty.
	Est brincando! Caramba, isso  maravilhoso. Bom trabalho.
	No  to maravilhoso assim. Para ser honesta, no sei quanto tempo mais poderei continuar com essa farsa.
	Tem visto a criana?
	Claro! Sou eu quem cuida dela!
	Tirou fotos?  Mike perguntou.
 Bem, tirei algumas, e...
 Precisamos de fotos, especialmente de Pearce Tyrone com a menina. Esta deve ser sua prioridade.
	No posso tirar fotos de Pearce e Patty abertamente. E difcil...
	No  difcil coisa alguma  Mike retrucou.  Escute, voc precisa de um fotgrafo. Vou providenciar um.
	No! No conseguirei infiltrar ningum na casa. J est difcil a minha permanncia l.
	Pelo amor de Deus, voc  uma jornalista profissional. Contorne os problemas. Diga a Pearce Tyrone que seu namorado quer visit-la, ou algo no gnero. E uma atrapalhao, essa greve nos aeroportos, mas posso enviar algum que esteja na Itlia. De trem.
	No, Mike,  muito arriscado. Escute, tenho de ir...
	Vou telefonar para a casa dele. Tem o nmero?
	No, no tenho. No me telefone. Pearce vai suspeitar.
	No seja boba. Voc  uma mulher atraente. E claro que pode ter um namorado que queira telefonar. Qual o nome que est usando?
	Estou usando meu nome mesmo, mas no me ligue. Estou numa situao perigosa.
	Sei como adora o perigo  Mike declarou, rindo.  No foi voc quem implorou para <ser mandada para a guerra, no ano passado?
	Foi, mas era diferente...
Ou no era? Cathy olhou para o relgio de pulso e entrou em pnico.
	Tenho de ir  disse.  Mike...
	Sabe que Jody Sterling est se recuperando muito bem?  o chefe perguntou, interrompendo-a.  Todos j sabem que Patty est com Pearce Tyrone.
	Oh, no!
Aquela era uma pssima notcia. Pearce passaria a ser perseguido por reprteres ansiosos para conseguirem todos os detalhes.
	H rumores de que Jody ir para a Cote D'Azur, assim que puder viajar  Mike informou.  J descobriu o que Pearce sente por ela? Acha que ele vai pedi-la em casamento?
	Casamento? Acho que no.
	Pelo amor de Deus, Cathy, acorde! E preciso descobrir isso. O homem teve uma filha com Jody.  claro que deve acontecer um "final feliz". Descubra. Quero publicar a histria antes dos outros jornais.
Cathy bufou e olhou para seu relgio mais uma vez.
	Eu no gosto disso, Mike. Me sinto desonesta.
	J descobriu algo interessante?
Cathy pensou em contar que Pearce j fora casado, mas, sem saber ao certo por qu, preferiu guardar segredo.
	Estou procurando, estou procurando  respondeu.
	No me interessa o que tenha que fazer. Quero uma boa matria.
Cathy bateu o fone no gancho. Mike comeava a perturb-la. Ela j pensava em enfrent-lo, protestando contra suas ameaas indiretas, nem que isso causasse sua demisso. Ah, se no amasse tanto ser reprter!
Mike era um homem muito temperamental. A esposa vivia dizendo que ele seria capaz de vend-la por uma boa reportagem. Cathy ria cada vez que ouvia aquilo, mas, ultimamente, comeava a achar que a mulher no estava exagerando.
Olhando para o relgio pela terceira vez, pegou a mala e correu para o elevador. J estava atrasada. Ao sair do hotel, olhou para a esquina e ficou inquieta ao ver que o Mercedes j estava parado l, porm foi um alvio ver que Pearce no sara do veculo. Se ele houvesse entrado na casa, ela teria sido descoberta.
	Ol  ela cumprimentou com um amplo sorriso, assim que Pearce saiu do carro, sabendo perfeitamente que teria de dar uma boa explicao por estar caminhando pela rua com a mala.
	Onde esteve?
	Voc no estava aqui, quando sa, ento resolvi dar uma volta no quarteiro para comprar algumas coisinhas.
	Comprar o qu?
Pearce pegou a mala e colocou-a no porta-malas do carro. Cathy devia ter dito que no era problema dele, mas talvez no fosse boa idia.
 Artigos pessoais  respondeu.
Por um momento, achou que Pearce perguntaria que artigos eram aqueles. Ficou tensa, pensando no que iria dizer, mas ele apenas passou por ela e abriu a porta do passageiro.
 Vamos  Pearce comandou. Cathy ficou calada na maior parte do caminho e volta para a casa, refletindo sobre a conversa que tivera com Mike. Torcia para que ele no andasse um fotgrafo, pois a presena de mais algum naquela casa dificultaria sua permanncia ali.
Perguntou-se por que no contara ao chefe sobre a viuvez de Pearce. No sabia ao certo por qu, mas tinha muito mais a ver com o sentimento estranho que vinha experimentando, do que com uma deliberada omisso.
Pearce murmurou algumas palavras, chamando a ateno de Cathy.
 Parece que teremos companhia  ele informou com rispidez.
Cathy olhou para a frente. No deveria ficar chocada com a quantidade de reprteres que se encontrava na frente da casa de Pearce, mas ficou. Cmeras logo viraram-se na direo deles. Mike estava com a razo, quando dissera que todos j sabiam que Patty estava com Pearce.
Pearce parecia impaciente ao dirigir seu carro lentamente atravs da multido. Os reprteres rodeavam o veculo, todos fazendo as mesmas perguntas.
  verdade que voc e Jody pretendem se casar em breve? Voc  o pai de Patty?
Pearce nem se dava ao trabalho de olh-los, apenas continuava dirigindo o Mercedes. Cathy estava petrificada no banco do passageiro, com receio de que algum a reconhecesse. Tentou evitar que a filmassem ou fotografassem.
Ao virar o rosto para a esquerda, achou que vira David Collins. A ltima vez que soubera dele, David estava trabalhando na Alemanha. Como no ousava olhar para a multido de reprteres de novo, afundou-se em seu assento.
Pearce apertou o controle remoto para abrir o porto.
 Malditos abutres  murmurou.
Cathy ficou arrepiada com seu tom de voz, carregado de raiva, que mostrava mais uma vez quanto ele desprezava os membros da imprensa. Quando ele descobrisse a verdade sobre Cathy, ela seria a mais desprezada. Cathy s podia torcer para que estivesse longe da casa dele, quando aquilo ocorresse.
	Eles esto apenas fazendo seu trabalho  disse, conciliadora.
	Acha?  Pearce lanou-lhe um olhar impaciente, depois franziu a testa.  Qual o problema? Voc ficou plida.
	No  nada.
Cathy ajeitou-se no banco. Sentia-se uma idiota. Aquele homem que vira na multido no podia ser David Collins. Ele se encontrava a milhares de quilmetros dali.
 Detesto a imprensa  Pearce declarou, irado, olhando para trs para ver se Patty estava bem.
A menininha dormia placidamente.
 Para ser sincero, acho que gostam de procurar problemas  ele prosseguiu, ao estacionar o carro na frente da casa.  Qual a razo do interesse em saber se vou casar com Jody Sterling ou no?
Eu estou, Cathy pensou, mas encolheu os ombros, fingindo indiferena.
	As pessoas no tm mais com que se preocupar?  Pearce indagou.  Aposto que a imprensa dir que eu e voc somos namorados.
	Acho que no  ela respondeu, sentindo seu corpo aquecer-se quela sugesto.
	Acha que no? Digo que essas pessoas no tm escrpulos.
Cathy ficou irritada.
	No so todos assim  replicou, mas ao mesmo tempo pensou que sua presena naquela casa s reforava a opinio dele.  E, a propsito, se quer viver no anonimato, deveria ser encanador, no escritor famoso.
	 mesmo?
	Curiosidade faz parte da natureza humana. As pessoas tm interesse pelas outras, especialmente por gente famosa. Voc no quer saber nada, a respeito de ningum? Nunca quis saber o que uma pessoa famosa come, beb, o que faz quando no est trabalhando, do que gosta ou no gosta, dos fatos engraados que acontecem?
	Acha que vai saber tudo isso, lendo um artigo de jornal? E muita inocncia. Lamento, mas devia ser mais ctica. Acredito que metade do que colocam nos jornais  pura inveno. Se no conseguem informaes suficientes, apimentam a histria distorcendo a verdade.
Cathy entreabriu os lbios para protestar, para dizer que nunca escrevera nada alm da verdade, que tinha orgulho de mostrar ao pblico fatos slidos e consistentes, mas as palavras morreram em sua boca.
Quase estragara a chance de conseguir uma boa reportagem, por causa de uma irritao momentnea. Calou-se, passou a lngua nos lbios, mal acreditando que quase se entregara.
	Ia dizer alguma coisa?  Pearce indagou.
	No, nada, mas acho que todos precisam sobreviver.
	Est sugerindo que foi crueldade minha no ter dito nada a eles?
	Poderia ter dito alguma coisa.
	Talvez esteja certa. Gosto de pensar em mim como um homem ponderado.
Antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, Pearce deu r no carro. Por um momento, Cathy achou que fosse atropelar os reprteres, mas ele apenas aproximou o carro do porto.
	Vamos dar a eles algo que possam escrever  Pearce declarou.
	Como assim?
Pearce aproximou-se dela e pegou-a pelo queixo.
	Um beijo faria com que todos voltassem felizes para casa  disse.
	No acho que seja uma boa idia.
	Por que no? Est com medo, ou no acha socialmente corre to beijar o patro?
	Como explicaria o beijo a Jody Sterling?
	Acho que no tenho de explicar nada para ningum, mas j que perguntou, direi que estava dando um momento de alegria  imprensa.
Cathy arregalou os olhos e observou-o inclinar a cabea para beij-la. Deveria t-lo empurrado, deveria ter lhe dado um tapa na face, mas beijou-o com paixo.
 Adorei  ele falou.
Cathy tinha a impresso de que estava nas nuvens.
	No acredito no que acabou de fazer.
	No?  Ele a beijou novamente.  Uma reprise, para o caso de algum no ter focalizado a cmera em ns na primeira vez.
	No acha que foi loucura?
 Oh, acho, acho que foi uma loucura total.
Cathy olhou para trs.
	Acha que algum vai conseguir tirar uma foto decente, a essa distncia?  perguntou.
	Espero que consigam  Pearce afirmou, conduzindo o carro de volta para a frente da casa.  Com um pouco de sorte, algum escrever uma boa matria.
	O beijo foi um recado para Jody, para a imprensa, ou para ambos? Est querendo dizer a ela que no vo se casar?
Ele desceu do carro e abriu a porta traseira.
	Catherine, est levando isso muito a srio.
	E Jody no est?
	Quer uma resposta sincera quanto a ela?

	E capaz de dar uma? Cathy observou-o tirar Patty da cadeirinha.
	No vou me casar com Jody Sterling  Pearce respondeu.  Ela sabe disso, eu sei disso, e agora a imprensa tambm sabe.
Cathy recebera sua resposta, mas ele abrira caminho para outras perguntas.

CAPTULO VI

Cathy realmente tentou fazer o jantar, mas queimou a carne, e as verduras e os legumes ficaram cozidos demais. Teve vontade de jogar tudo pela janela.
	Como est o jantar?  Pearce indagou, entrando na cozinha no momento em que ela colocava a panela com a carne queimada dentro da pia, depois de ter desligado o exaustor.
	Perfeito  ela disse, virando-se para que ele no visse a carne.
	Ainda tenho tempo para tomar banho?
	Oh, claro.
Quando Pearce saiu da cozinha, Cathy sentou-se numa cadeira, exausta. Aquele fora um dia difcil, e havia uma certa tenso pairando no ar.
Desde o beijo, Pearce e ela ficaram frios um com o outro. Haviam trabalhado juntos no escritrio por uma hora, Cathy digitando no computador, e ele entretido com uns papis. Mal se falaram.
Cathy chegara  concluso de que ele se preocupava com a possibilidade de ela ter visto no beijo algo mais do que uma simples diverso.
Colocou a mo nos lbios, como se ainda pudesse sentir o toque da boca mscula contra a sua. Tinha conscincia de que aquele beijo no significara nada para Pearce, e queria parar de pensar no assunto.
Afastou-se da pia e aproximou-se do telefone. No ia cozinhar mais nada. Logo que entrara na cozinha, pensara em ligar para um pequeno restaurante e pedir um jantar, mas achara muito arriscado. S que agora Pearce subira para tomar banho, e o pessoal da imprensa desaparecera da frente do porto.
Com determinao, ela pegou o telefone e discou para o Le Gardin, que ficava a poucos quarteires, rua acima. Sabia que o bistr fazia entregas a domiclio.
Deixaria o porto aberto para que entrassem, e pediria para que entregassem o pedido na porta dos fundos, assim Pearce no desconfiaria de nada.
Sua coragem abandonou-a, quando Pearce apareceu na cozinha antes de a comida chegar. Ele estava muito atraente, usando cala jeans e camisa de seda azul.
	Quer que eu ajude em alguma coisa?  perguntou, olhando para o fogo.
	No, no, obrigada.
Cathy torceu para que ele no olhasse os monitores e visse que o porto estava aberto.
	Se quiser, pode ir para o escritrio. Levo seu jantar numa bandeja  sugeriu numa tentativa desesperada de tir-lo dali.
	J trabalhei muito por hoje  ele respondeu, sentando-se numa cadeira.  Se estiver bem para voc, pensei em comermos juntos.
Cathy ficou mais nervosa ainda. No ntimo, estava encantada com aquela sugesto, mas se Pearce ficasse ali, descobriria que ela havia encomendado o jantar. Logo o rapaz da entrega estaria batendo na porta.
	 uma boa idia  ela falou, em seguida mordeu o lbio inferior, tentando imaginar um meio de tir-lo da cozinha.  Por que no jantamos na sala de jantar? Ser muito mais relaxante.
	J estou relaxado.
Pearce fitou-a de uma maneira to provocante, que ela teve a impresso de que ele podia v-la nua.
Depois de colocar Patty no bero, Cathy tomara banho e vestira uma saia preta e uma blusa branca de jrsei. Aquelas duas peas eram as nicas que no estavam completamente amassadas, depois do modo como ela enfiara as roupas na mala.
Pensou se aquela saia no estava muito curta. De repente, a idia de que Pearce estivesse achando que ela tentava seduzi-lo fez com que suas faces se aquecessem, ruborizadas.
 Quer me deixar terminar o jantar sozinha?  indagou, tensa.
 Tudo bem.
Para alvio de Cathy, Pearce levantou-se, mas no saiu da cozinha de imediato. Abriu o armrio e pegou dois copos.
 Talvez eu deva arrumar a mesa  ele sugeriu.
	Vou aceitar sua sugesto de jantarmos na sala de jantar.
Cathy observou-o sair da cozinha. Bastou que ele desaparecesse, para que se ouvisse o ronco de um automvel. Rapidamente, ela abriu a porta dos fundos. O rapaz da entrega devia t-la achado louca, pois ela pegou a encomenda, pagou e recuou apressada, batendo a porta.
	 uma boa cozinheira  Pearce elogiou, enquanto Cathy servia-lhe uma segunda poro.
	Obrigada.
Estavam sentados  bela mesa de mogno. Pearce acendera as velas do candelabro, e a luz suave dava ao ambiente um clima de intimidade. Era como se fossem namorados.
Cathy fitou-o. Aquele pensamento era ridculo. Perguntou-se se ele a via como uma presunosa, por ela ter sugerido que comessem na sala de jantar.
	No precisava ter acendido as velas  declarou.
	Teve o trabalho de preparar esta deliciosa comida.  Pearce observou-a com um amplo sorriso nos lbios.  Tambm sugeriu que comssemos aqui, ento, decidi fazer as coisas em grande estilo.
	Claro, mas quando sugeri que jantssemos aqui, eu no...  Cathy hesitou, sem saber ao certo o que dizer.  Bem, no imaginei que...
Parou, pois estava piorando a situao. Os olhares deles se encontraram. Ela ficou arrepiada.
	O que quero dizer  que estou me sentindo pouco  vontade, porque esta tarde...
	Porque nos beijamos?
Cathy movimentou a cabea afirmativamente.
	Sei que no significou nada  disse.  Sei que foi pura diverso, mas quero que saiba...  Encolheu os ombros.  Estou sendo clara?
	No  Pearce respondeu, rindo, depois inclinou-se para a frente e colocou mais vinho no copo dela.  Como pode afirmar que o beijo no significou nada?
	No provoque. Isso no  nada engraado, muito menos cavalheiresco.
	No sei se quero ser cavalheiresco. Voc  uma mulher muito atraente. Perturba o equilbrio hormonal masculino.
Cathy sentiu um calafrio. Percebeu, de sbito, que Pearce era um mestre na arte de seduzir. Tentando dissipar a aura sensual que ele estava criando com aquelas palavras.
	No mencionou algo a respeito de no fazer amizade com os empregados?  perguntou.
	Mencionei, mas talvez tenha dito s para me manter longe de voc. Tem namorado?
	No, nenhum relacionamento srio. No desde... Faz muito tempo.
Ia dizer "desde David", mas no desejava introduzir seu ex-noivo na conversa. Recordou que chara que o tinha visto no meio da multido de reprteres.
	Desde que seu noivado terminou?  Pearce sugeriu.  Quanto tempo faz que terminaram?
	Dois anos.
Cathy pegou o copo de vinho. A qualquer momento, Pearce perguntaria onde ela e David tinham se conhecido. Como no queria entrar naquela conversa perigosa, mudou de assunto.
	Importa-se, se conversamos sobre outras coisas?  indagou, tensa.  No gosto de falar de David.
	Por qu? Ainda gosta dele?
	No, no, s no quero tocar nesse assunto.
	Ele deve t-la magoado muito.  Pearce observou-lhe o rosto, pousando o olhar nos lbios carnudos.  Ele deve ser louco, para t-la deixado partir.
As palavras e o tom de voz que ele usou mexeram com as emoes de Cathy.
 Quer falar sobre o qu?  Pearce perguntou.
Por alguns instantes, ela ficou quieta, tentando controlar o turbilho de emoes que sentia.
 No sei  murmurou, encolhendo os ombros.
	Patty? Fale-me sobre a me dela. Diga como ela .
Ele franziu a testa, e ela ficou com receio de ter sugerido aquele assunto muito abruptamente.
	Jody  linda e talentosa  Pearce falou, pegando o copo de vinho.  J deve t-la visto em algum filme.
	J. Estou curiosa para saber como  a verdadeira Jody Sterling.
	 uma pessoa adorvel. No h muito mais o que acrescentar.
	Por que no vai se casar com ela?
	Estou apenas me deparando com a natureza curiosa do ser humano, a que se referiu esta tarde?  ele indagou com aspereza.  Ou h algum interesse mais pessoal?
 S estou curiosa.
Assim que Cathy conseguisse compreender o relacionamento de Pearce e Jody, escreveria sua matria, e aquela farsa terminaria. Aquele pensamento criou uma desconfortvel onda de melancolia.
	Se comprar os jornais de amanh, ver que eles atribuiro a voc o fato de eu no me casar com Jody  Pearce avisou.
	No quero saber o que os jornais dizem. E, de qualquer maneira, se conseguiram tirar uma foto nossa, sei o que diro.
	Que sou um sedutor de mulheres.
Ele se inclinou na cadeira com um malicioso sorriso nos lbios.
	E voc ?  Cathy perguntou.
	Essa  uma pergunta traioeira. Se eu negar, acreditar em mim? Claro que no, principalmente depois de eu ter dito que a achava atraente, ou depois do modo como a beijei essa tarde.
Pearce inclinou-se para a -frente, apoiando os cotovelos na mesa.
 Embora eu tenha de dizer que percebi que voc tambm gostou do beijo  prosseguiu.
Ela no queria se mostrar embaraada com aquela declarao, mas foi inevitvel. Adorara a presso dos lbios firmes contra os seus.
	Se eu disser que sim, que sou um sedutor de mulheres, no ficar aborrecida, se eu a beijar de novo, ficar?
	Acho que est propositalmente me provocando.
	Estou conseguindo?
	No.
Cathy forou um sorriso.
 Tudo bem  Pearce murmurou, parecendo contente consigo mesmo.
Ele sabe muito bem que me perturba, ela pensou, furiosa.
Fitou-o. Ainda no conseguira respostas quanto ao relacionamento dele com Jody, nem descobrira por que eles no se casariam.
	Sabe o que acho? Acho que voc  um homem que leva suas responsabilidades muito a srio. Ama Patty e quer o melhor para ela, mas, no ntimo, est com medo de se comprometer com Jody.
	Por qu?
Cathy encolheu os ombros.
 Talvez porque esteja com medo de perd-la, como perdeu sua esposa  disse.  Seu instinto de auto-proteo afasta-o de um relacionamento mais profundo.
Pearce ficou imvel por alguns segundos, fazendo com que ela achasse que atinara com a verdade.
	Vocs, babs, tambm entendem de psicologia?  ele perguntou.
	Estou certa, no?
	No. Est completamente errada e passando dos limites. Meu relacionamento com Jody no  da sua conta. Est aqui para cuidar de Patty, no para analisar meus romances.
Cathy teve a sensao de que levara um tapa no rosto.
 Desculpe, mas voc comeou a fazer perguntas pessoais  replicou.  E no acha que passou dos limites, quando me beijou esta tarde?
	Touch. Talvez tenha sido uma boa lio para ns, para mantermos distncia um do outro.
	Se  o que quer...
Cathy levantou-se e comeou a recolher a loua suja com raiva. Por que se sentia daquele jeito? Pearce tinha todo o direito de no querer que ela se intrometesse em sua vida. Foi para a cozinha.
Estava envolvendo-se perigosamente. Adorava toda vez que Pearce falava num tom de voz sensual e, cada vez que ele se mostrava rspido, ficava chocada.
Lembrou-se de que estava naquela casa para conseguir uma reportagem. Seu trabalho era o que havia de mais importante. Nada devia desvi-la dele. Nada de emoes. Comeou a arrumar a loua na mquina, furiosa consigo mesma.
	Deixei-a irritada  Pearce declarou, encostado no batente da porta, observando-a.
	No, acho que fui eu que o irritei.
 No vamos discutir  ele falou, sorrindo. 
Aquele sorriso fez com que Cathy se sentisse vulnervel. No queria sentir-se atrada por ele, mas sentia-se. Diante das circunstncias, aquele era um erro de propores inimaginveis.
	No, no vamos discutir  ela disse, ligando a mquina.  Provavelmente estamos cansados.
	Talvez.
Apesar de a conversa transcorrer educadamente, havia tenso no ar.
	Quer caf?  Cathy ofereceu, pegando a cafeteira.
	Lembrou-se de fechar o porto, quando Henri foi para casa?
Ela franziu a testa e virou-se, vendo que ele observava os monitores.
 Claro que fechei  respondeu.  Eu... 
Recordou que tinha fechado o porto depois que Henri sara, mas esquecera-se de fech-lo aps a sada do carro de entrega do Le Gardin. Sentiu as faces corarem.
 Mais ateno, Catherine! Podia haver reprteres l fora, sem contar os ladres.
Ela nem acreditava que tivesse feito tamanha bobagem. Estivera to preocupada com o jantar, que fechar o porto no lhe passara pela cabea.
 No posso pensar em tudo  murmurou.
Aproximou-se da pia para encher a cafeteira com gua e olhou fixamente para a janela. Pelo pouco que conhecia de Pearce, reprteres eram to "bem-vindos" quanto ladres. De sbito, viu algum l fora. Ficou to chocada, que soltou um grito.
	O que foi?  Pearce indagou, parando ao lado dela.  O que aconteceu?
	Tem algum l fora. Algum estava olhando para ns.
Ele olhou pela janela, mas no viu ningum.
 Vou ligar para a empresa de segurana  decidiu, pegando o telefone.
Depois de dar a senha, colocou o fone no gancho, em seguida caminhou na direo da porta dos fundos.
 No v l fora  Cathy pediu, assustada.  Ele pode estar armado. Pode estar esperando por voc.
	Acho que depois do grito que voc deu, ele est a quilmetros de distncia daqui.
	Mesmo assim, no abra a porta.  Ela segurou o brao musculoso. -Eu no suportaria, se algo acontecesse com voc. Seria minha culpa, por ter deixado o porto aberto e...
 Acalme-se. Tudo bem, no vou abrir a porta. Ele encostou a cabea dela contra seu peito.
  tudo minha culpa  ela se lamentou.  Desculpe eu ter deixado o porto aberto. Estava
to entretida com o jantar...
Pearce abraou-a.
 Esquea, no aconteceu nada, exceto com seu sistema nervoso  murmurou.
O perfume da colnia masculina fez com que Cathy se lembrasse da noite anterior, quando entrara no quarto de Patty s de lingerie.
 Sente-se melhor?  ele perguntou.
Ela afastou-se e fitou-o.
	Eu me sinto muito bem em seus braos  disse.
	Que inferno, Catherine!
O tom de voz dele era uma mistura de impacincia e desejo. Cathy sabia que aqueles dois sentimentos eram perigosos, assim como Pearce. Ele inclinou a cabea e beijou-a apaixonadamente.
Ela pressionou o corpo contra o dele, querendo mais. No conseguia pensar com clareza, desejava apenas saborear aquele momento. Ento, o som da campainha os fez afastar-se. Cathy fitou-o, sem saber o que dizer.
  melhor mantermos distncia  Pearce disse, ofegante.
A campainha tocou de novo.
 Deve ser o pessoal da empresa de segurana  ele comentou, caminhando para a porta.  Vou atender, antes que acordem Patty.
Cathy observou-o afastar-se. Precisava sair daquela casa o mais rpido possvel, antes que a situao fugisse de seu controle.

CAPTULO VII

Cathy j estava deitada. Os homens da empresa de segurana ficaram procurando o suspeito durante horas. Ela os observara pela janela do quarto, por um bom tempo, vendo a luz das lanternas iluminar a escurido, depois fora at o armrio e pegara a mala.
Mas no ps nenhuma roupa dentro. A mala ficou no cho, aberta e vazia. Cathy olhou-a. A coisa mais sensata a fazer era partir. Tinha informaes suficientes para escrever uma boa matria. Sabia que Pearce j fora casado e que perdera a esposa num acidente.
S que no desejava escrever a histria, muito menos ir embora. Estava completamente confusa diante dos sentimentos que experimentava. Tudo o que sabia com certeza era que se encontrava terrivelmente amedrontada com suas prprias emoes.
Nunca se sentira to atrada por algum, como se sentia por Pearce. Nem David, de quem fora noiva por quatro meses, fizera Cathy sentir-se daquela maneira. Jamais havia experimentado um desejo to poderoso desejo que a impedisse de ter pensamentos coerentes.
Ouviu uma batida na porta. Sentou-se na cama, amarrou firmemente o penhoar ao redor da cintura. Arrepiou-se, apreensiva.
	Catherine, posso entrar? Cathy permaneceu em silncio.
	Catherine?
Pearce abriu a porta e olhou ao redor.
	Acho que sua presena aqui no  uma boa idia  ela falou.
	Talvez no.  Ele entrou no quarto, segurando um copo de conhaque.  Achei que quisesse um gole.
 Obrigada, mas no gosto de conhaque. Cathy no conseguia encar-lo.
 Eu desconfiava, mas foi uma desculpa que arrumei para v-la  ele confessou.
Aquela honestidade fez com que ela ficasse ainda mais tensa.
 Posso sentar?  Pearce perguntou.
Cathy movimentou a cabea afirmativamente, achando que Pearce fosse acomodar-se numa cadeira. Mas ele sentou-se na cama.
	O pessoal da empresa de segurana encontrou algum?  ela indagou.
	No. O terreno  grande, e a vegetao, muito densa. O intruso j deve estar bem longe daqui.
	Pearce fez uma pausa.  Quer que eu guarde?
 O qu?  Cathy ergueu a cabea e viu que ele olhava para a mala aberta e jogada no cho.
	Eu ia pr as roupas dentro dela  declarou.
 Estava pretendendo partir?
	O que sugere que eu faa? No posso ficar aqui, posso? No com a atrao que existe entre ns.
	Mas tambm no pode ir embora.
	Vai encontrar outra pessoa para cuidar de Patty.
Cathy estava profundamente triste. Era ridculo, mas gostava de cuidar de Patty, adorava estar naquela casa.
	Eu sei, mas quero voc  Pearce afirmou.
	Espero que esteja se referindo aos meus servios.
 Espera? 
Eles se olharam.
 Eu j disse que a acho muito atraente e tenho plena conscincia de que isso  loucura  Pearce declarou.  Voc trabalha para mim e temos que ter confiana um no outro.
A palavra "confiana" ecoou na mente de Cathy. Ela estava abusando da confiana dele...
	Est sugerindo que eu entre com um processo de assdio sexual, se me beijar de novo?  indagou.  Acho loucura o que est acontecendo entre ns, por isso acho que  melhor eu ir embora.
	Talvez voc tenha razo. Est formalmente abandonando o emprego?
Cathy olhou-o. Queria que ele discutisse, dissesse que ela no podia partir, e ficou desapontada, sentindo-se idiota.
Pearce afagou-lhe o rosto
 Talvez, se no estiver trabalhando para mim, eu no me sinta culpado por beij-la de novo. E
quero muito beij-la mais uma vez. 
Eles estavam muito prximos um do outro. Ela queria ser beijada, mas lutou contra aquela insanidade e tentou raciocinar com clareza.
 E quanto a Jody?  indagou num tom de voz carregado de emoo.  No se sente culpado
por estar enganando-a?
Pearce ficou calado por alguns segundos, ento sorriu.
 Falaremos sobre Jody depois  respondeu. Inclinou a cabea e beijou-a com ardor. Cathy rendeu-se, pois estava apaixonada. No havia dvida quanto quilo. O beijo tornava-se mais trrido a cada segundo.
O lenol da cama foi jogado no cho. As mos msculas acariciaram as curvas do macio corpo feminino, sentindo os seios grandes e redondos, depois pousando nos quadris.
Cathy massageava os ombros largos e musculosos, entrelaava os dedos nos fartos cabelos pretos. Estava totalmente fora de si, louca de desejo, quando, de sbito, Pearce afastou-se.
	No pare  ela sussurrou. Ele acariciou os cabelos sedosos.
	Sabe que se eu no parar agora...
Cathy tocou-lhe o rosto. Os olhos pretos e brilhantes mostravam puro desejo.
 Voc me deseja?  ela indagou com sensualidade.
Pearce no disse nada, apenas desamarrou-lhe o penhoar, expondo os belos contornos do corpo seminu. Cathy ficou arrepiada, quando ele beijou um dos mamilos eretos.
  uma mulher muito bonita  ele declarou, massageando os seios firmes, fazendo-a gemer
de prazer.
Beijou-a, deslizando as mos at as coxas bem torneadas, tocando-a em sua parte mais ntima. A camisa azul e a cala jeans que usava logo foram atiradas ao cho, e os olhos verde-esmeralda de Cathy admiraram a pele bronzeada, os ombros, o trax musculoso e as coxas fortes. Ele riu, quando os olhos dela desceram para baixo da linha da cintura.
	V? No h dvida sobre quanto a desejo  murmurou.
	No h nenhuma dvida.
	Vou pegar um preservativo.
Cathy observou-o colocar a mo no bolso da cala jeans. Ele ter ido a seu quarto, preparado para fazer amor, foi para ela como um banho de gua fria. Mas no podia" culp-lo. S no queria ser usada. Nunca na vida fizera sexo por sexo, e no iria comear a mudar de atitude naquele momento.
Como poderiam ter qualquer tipo de relacionamento, quando ela mentia sobre quem era, e ele estava envolvido com outra mulher? No era correto.
	Pearce, acho que talvez isso seja um erro  ela falou ao v-lo deitar-se na cama, a seu lado.
	Tomar precaues no  um erro  ele declarou, referindo-se ao preservativo.
Inclinou a cabea e beijou os seios dela, um de cada vez, sugando-os, provocando gemidos de prazer. Pousou as mos nas coxas macias, afastou-as e foi deslizando a lngua pelo ventre dela.
 Pearce,  melhor parar...
No adiantava Cathy argumentar contra seu prprio corpo, mas com grande esforo, ela conseguiu afast-lo.
	Isso no  certo  disse.
	Por qu?
	Eu no sei.  Ela pegou a camisola e vestiu-a.  Mas no  certo.
	Para mim est tudo certo.
Pearce sentou-se na cama e passou a mo nos cabelos. Cathy sentia que ele estava lutando para manter o controle. Parecia furioso, e ela no o culpava por aquilo.
Ela estava com raiva de si mesma por haver compartilhado aquela situao. Precisava contar a verdade. Seu artigo no jornal no era nada, comparado com o amor que sentia por Pearce.
 Voc e Jody esto apaixonados?  perguntou, sentindo-se envergonhada.
A expresso de Pearce fechou-se ainda mais.
 Por favor, tente entender  ela pediu. 
Patty comeou a chorar. Cathy vestiu o penhoar.
 Preciso saber! Nunca em minha vida tive um relacionamento casual, sexo por sexo, e sinto
que se voc e Jody tm um compromisso srio...
Pearce se vestia, enquanto ela falava.
 Acho que devemos discutir isso pela manh  disse com aspereza.
Cathy pestanejou, pois esperava fria, no frieza. Patty no parava de chorar.
	Vou v-la  Cathy declarou.
	Oh, no, deixe-a comigo. Voc se demitiu, esqueceu?
Com aquela declarao, Pearce saiu do quarto.

CAPITULO VIII

Logo de manhzinha, o sol entrava pela janela do quarto de Cathy, enquanto ela vestia um short-saia e um top. Estava exausta, pois mal conseguira dormir,  noite.
Escovou os cabelos e olhou-se no espelho. Estava com olheiras e com a pele plida. Ficara horas deitada, olhando para o teto.
Suspirou, colocou a escova de cabelos na cmoda e foi para o quarto de Patty. Ficou assustada ao ver que a menina no estava no bero.
Ouvira Patty chorar boa parte da noite, e Pearce murmurar palavras carinhosas. Quisera juntar-se a eles, mas no tivera coragem.
S quanto estivera certa de que o quarto da garotinha encontrava-se em silncio, reunira coragem para ir at l, p ante p. Entreabrira a porta e vira Pearce sentado numa poltrona ao lado do bero.
Achara que ele estava acordado, mas ao caminhar para dentro do aposento, percebeu que adormecera com Patty envolvida em seus braos.
Ficou parada, observando-o. A expresso de Pearce era gentil, e algumas mechas de cabelos caiam em sua testa.
Ela sentiu necessidade de toc-lo, de mergulhar os dedos nos cabelos pretos, murmurar que o amava. Mas, em vez disso, voltou para o quarto, sentindo-se sozinha e abandonada.
Afastando aquelas lembranas, Cathy desceu a escada. No sabia o que diria a Pearce. Como podia lidar com o que acontecera na noite anterior? Estava com receio de encar-lo.
Ao andar pelo corredor, na direo da cozinha, ouviu a voz dele. De incio, achou que Pearce estava conversando com Patty, mas hesitou ao ouvir o nome de Jody.
Parou na porta da cozinha e viu Pearce falando ao telefone, enquanto com a outra mo tentava alimentar Patty.
 Como voc est?  ele perguntou  pessoa do outro lado da linha.  Claro que fiquei preocupado. Tudo bem, darei um beijo nela e direi que voc vir em breve.
O corao de Cathy saltou dolorosamente no peito. Ela acabara de ter sua resposta. Pearce estava apaixonado por Jody, mesmo tendo afirmado que no se casaria com ela.
Por um lado, Cathy ficou aliviada. Fizera a escolha certa ao decidir contar a verdade, mas, ao mesmo tempo, sentia-se incrivelmente magoada. Como ele podia t-la beijado com tanta paixo, se amava Jody?
Nunca vou compreender os homens, ela disse a si mesma.
Lembrou-se de David. Ele dizia que a amava, fizera inmeras promessas de amor. A dor que ela sentira ao descobrir que ele tinha uma amante, ficara cravada em seu peito. Havia terminado o noivado com ele, mas a lio que aprendera ainda a incomodava.
Por que baixara as defesas com Pearce Tyrone era um mistrio. Conhecia-o havia poucos dias, mas apaixonara-se praticamente  primeira vista.
Pearce no fizera promessas, nenhuma declarao de amor, e, mesmo assim, Cathy oferecera-se totalmente na noite anterior.
Ele a notou parada na porta.
 Tenho que desligar, Jody  Pearce disse ao telefone.  Eu a vejo no fim de semana, certo?
Esperemos que a greve tenha terminado.
Riu de algo que Jody disse, despediu-se e desligou.
	Bom dia, Catherine  cumprimentou com alegria.
	Bom dia.  Cathy entrou na cozinha, tentando evitar os olhos pretos.  Ol, querida  disse a Patty.
A menininha sorriu, e Cathy serviu-se de uma xcara de caf, ganhando tempo para controlar as emoes. Quando sentou-se  mesa, Pearce observou:
 Parece cansada.
Ela o fitou. Ao contrrio, ele parecia bem disposto.
	Um pouco  Cathy respondeu.
	No me surpreende.
A simpatia no tom de voz dele fez com que ela ficasse emocionada.
 Decidi que vamos tirar um dia de folga, hoje  Pearce disse.  Vamos sair e relaxar.
	Como posso tirar um dia de folga, se no trabalho mais para voc?
	S aceito que no trabalhe mais para mim, quando me der sua carta de demisso.
	Sei qual  seu jogo, mas...
	Nada de jogos.  Ele se aproximou e tocou uma das faces aveludadas.  A verdade  que no quero que v embora.
Cathy sentia-se totalmente vulnervel.
	Mas est apaixonado por Jody, e eu...  murmurou.
	Sabe, temos de conversar sobre nossos sentimentos. Preciso lhe contar sobre Jody e eu.  Ele sorriu ao v-la abrir a boca, como se soubesse que ela pediria para que contasse naquele momento.  Mais tarde. Passaremos o dia fora, voc, eu e Patty.
	Mas eu...
	Cuidar de Patty? Ela precisa de um chapu, protetor solar, fraldas, essas coisas.  Pearce caminhou na direo do corredor.  Ah, no se esquea de colocar seu prprio bloqueador e um biquni na bolsa.
O motor do barco parou, e Pearce baixou a ncora. O silncio reinava, exceto pelas ondas batendo no casco do luxuoso iate.
Cathy olhou para a gua. Era um dia perfeito.
O cu estava sem nuvens e com um lindo tom de azul. Eles se encontravam a alguns quilmetros de distncia de Villefranche, uma vila pitoresca ao p de uma montanha.
Ela estava encantada com a vista. Respirou fundo e encostou-se na grade do iate, sentindo o calor do sol. Pearce desceu da cabina de controle. Havia tirado a camiseta e usava apenas um short azul-marinho.
 Est quente, no?  comentou.  Quer na dar antes do almoo?
Cathy tentou no admirar o peito musculoso e olhou para Patty, que dormia sossegadamente no carrinho, atrs da porta de vidro do corredor que dava acesso aos camarotes, com o ar-condicionado ligado.
 Podemos nos revezar  ele sugeriu.  Olhou Patty, enquanto voc estiver na gua, e vice-versa.
Ela movimentou a cabea afirmativamente e foi se trocar. Colocou o biquni e vestiu um short branco e uma camiseta. Sentia-se envergonhada por ter de tir-los na frente de Pearce para poder cair na gua.
Sorriu de sua tolice. Pearce vira metade de seu corpo na noite anterior. Mesmo assim, ela estava hesitante em ficar apenas de biquni.
Tirou rapidamente o short e a camiseta e mergulhou nas guas do mar Mediterrneo. Depois do sol quente do meio-dia, aquele mergulho era deliciosamente refrescante.
Nadou para longe do iate e virou-se para observ-lo. Era um belo barco, grande e luzidio, com dois mastros com velas quadrangulares que pareciam tocar o cu.
Quando Pearce falara que passariam o dia fora, Cathy jamais imaginara que seria no iate, que ficava ancorado numa luxuosa marina.
Ele sorriu ao perceber o olhar admirado dela.
 Aqui, podemos nos considerar sozinhos!  gritou.  Nada de reprteres.
A frase "nada de reprteres" ecoou na mente de Cathy. Ela nadou de volta para o iate, torcendo para que o exerccio a ajudasse a acalmar a mente.
Da maneira como Pearce falara antes de sarem de casa, Cathy presumira que ele quisesse ficar a ss com ela para conversarem, mas, at o momento, no houvera nenhuma troca de palavras mais sria.
Quando ela tentava introduzir o nome de Jody Sterling na conversa, ele mudava rapidamente de assunto. Ela conclura que ele a desejava, mas amava Jody.
	Como est a gua?  Pearce perguntou ao v-la de volta ao deque.
	Maravilhosa  Cathy respondeu, sorrindo e estendendo a mo para pegar a toalha que ele lhe estendia.
	No vou permitir que se cubra. Tem um belo corpo.
	No seja bobo!
Cathy tentou pegar a toalha, mas Pearce deixou-a fora de seu alcance. Com um brilho intenso no olhar, observou o corpo esbelto de cima a baixo. Ela sentiu os bicos dos seios ficarem eretos sob aquele olhar sedutor.
	Me d a toalha  pediu.
	Pensei que nunca fosse pedir.
Ele puxou-a para si e colou os lbios nos dela. Cathy sentiu-se totalmente desamparada, uma prisioneira do desejo. Queria muito mais do que aquele beijo, mas afastou-se ao ouvir o choro de Patty.
  melhor eu ir v-la  falou, ofegante e com raiva.
Estava furiosa consigo mesma por entregar-se aos braos dele com tamanha facilidade. De sbito, pensou que Pearce estava apenas interessado em seu corpo, que ele a convidara no para conversar, mas para seduzi-la.
	Catherine  Pearce murmurou, segurando-a pelo brao.
	Patty deve estar com fome. Acho que nossa diverso pode esperar, no?
Cathy sabia que aquele rspido comentrio pegara-o desprevenido, mas ele se recuperou e encolheu os ombros.
 Tudo bem...
Cathy observou-o aproximar-se da beira do deque e mergulhar na gua. No conseguia raciocinar com lgica, quando Pearce estava por perto. Sua mente ficava cheia de emoes que a espantavam e amedrontavam.
Vestiu as roupas por cima do biquni molhado. Talvez no devesse ser to spera com Pearce. Pensando bem, tirara concluses apressadas ao acreditar que ele a convidara para um passeio de iate s para seduzi-la. Talvez ele tivesse boas intenes. Podia estar esperando o momento certo para conversarem.
Recordou a conversa dele e de Jody ao telefone, naquela manh. Sentiu um aperto no corao. Voltou a considerar a possibilidade de Pearce t-la convidado para aquele passeio s para terminarem o que haviam comeado na noite anterior. Ento, ele diria tranquilamente "adeus", antes de Jody voltar para casa.
Uma vez, Cathy perguntara se ele se achava um sedutor de mulheres, e agora tinha sua resposta. Devia manter aquilo em mente e desaparecer da vida dele o mais rpido possvel.
O choro de Patty tornou-se mais alto, e Cathy correu para atend-la.
 Sei que est com fome, querida  Cathy murmurou.
Olhou carinhosamente para a criana. A menina conquistara seu corao, assim como Pearce. Sentiria muita saudade de ambos. Depois que escrevesse a reportagem, no os veria nunca mais. Queria convencer a si mesma de que no estava apaixonada por Pearce, de que tudo no passava e atrao fsica e de que o deixaria em breve, em nenhuma dificuldade. Pensar daquela maneira fez com que se sentisse melhor. Ao terminar de alimentar Patty, deu-lhe ma mamadeira com suco de frutas. Pearce apareceu naquele momento.
	Gostou de nadar?  ela indagou.
	Fez com que eu esfriasse.
	Sinto muito, mas o almoo  s salada.
	Sabe muito bem que pouco me importo com o que teremos para o almoo  Pearce replicou, segurando-a pelo brao.
	 o mesmo homem que disse ser exigente com as refeies?
	Estou comeando a mudar de idia.
	Pearce, por favor...
Ele inclinou a cabea e beijou-a.
	Por favor, o qu?  perguntou.  Por favor, pare? Por favor, no pare?
	Estou tentando ser sensata, tentando pensar com clareza.
	Faria alguma diferena, se eu dissesse que no h nada entre mim e Jody Sterling?
Ela franziu a testa.
	Quer dizer que terminou com ela?  indagou.
	No foi isso o que eu disse.
	Ela terminou com voc?
Cathy estava incrdula, no acreditando que uma mulher pudesse terminar um relacionamento com Pearce.
 Diremos que no somos um casal  ele falou. 
Ela sentiu alegria e esperana, mas baniu-as de imediato.
	No acredito  declarou.
	Acredite, ou no,  a pura verdade. Cathy encarou-o. A necessidade de acreditar
nele era forte, mas ainda tinha suas desconfianas. Lembrou-se da conversa que ouvira entre Pearce e Jody pela manh. Ele parecera carinhoso e apaixonado.
	No vai dizer que vocs tm um relacionamento liberal, vai?  ela perguntou.
	No, no vou, mas Jody tem seu caminho, e eu tenho o meu.
	Aposto que no mencionou nossa relao ardente, quando falou com ela essa manh, mencionou?
Ela ficou furiosa consigo mesma por ter feito aquela pergunta, principalmente quando Pearce respondeu calmamente:
	No precisa ter cime de Jody.
	No estou com cime. Por que estaria?  noite passada foi um erro. A paixo dominou o bom senso. Vamos colocar os fatos em seus devidos lugares.
 Acha que podemos?
Ela desviou o olhar.
	No  disse.  Mas devemos tentar. O que mais podemos fazer?
	Sei o que quero fazer.
O tom de voz sensual de Pearce causou um arrepio em Cathy.
 Quer me levar para a cama  ela falou.  No acha que isso vai piorar a situao?
 Pelo contrrio, vai melhorar.
Ela o encarou.
	Sabe que uma vez achei que estava apaixonada por um homem parecido com voc?  indagou.
	O que quer dizer com isso?
	Ele me disse que eu era a coisa mais maravilhosa que tinha acontecido a ele, que me amava mais do que tudo no mundo. Ento, descobri que ele dizia o mesmo para outra mulher.
Pensar em David deixava Cathy furiosa. Ela olhou para Pearce com desdm.
	Como v, Jody Sterling tem minha completa simpatia  prosseguiu.
	Presumo que esteja falando de seu ex-noivo. Acho que ele no se parece nem um pouco comigo. Eu nunca disse a uma mulher que a amava s para lev-la para a cama.
 Assim como a lua  feita de queijo  ela retrucou com sarcasmo, fazendo meno de se
afastar.
Pearce segurou-a pelo brao.
 Bem, no murmurei nenhuma palavra de amor para voc, ontem  noite. Foi onde errei?
Cathy, por alguns segundos, no acreditou no que ouvia. Ento, irada, esbofeteou-o. Como no queria ver a reao dele, saiu correndo, na direo dos camarotes.
Estava arrependida, mas ao mesmo tempo dizia a si mesma que Pearce merecera o tapa. Ele alcanou-a em instantes, segurou-a pelos braos e virou-a, de modo que ficassem frente a frente.
	Antes que diga qualquer coisa, peo desculpas  ela disse.
	Tem mesmo de pedir.
	Fiquei furiosa.
	Por qu? Porque lembrei-a de que no falei "eu te amo" ontem  noite?
	No seja ridculo. No esperava que dissesse nada do gnero. Ontem  noite, eu queria uma explicao.  Cathy estremeceu.  Nunca fiz sexo por sexo. Tambm no esperava nenhuma declarao de amor, s queria saber em que terreno estava pisando. E o que voc sente por Jody.
	Eu j lhe disse.
	O qu? Voc disse muito pouco.
	E quer saber os mnimos detalhes?
Cathy lutou contra a sensao de que no passava de um brinquedinho. Talvez seu instinto de jornalista, ou seu instinto feminino, estivessem em ao. Franziu a testa, tentando pensar com clareza, tentando entender o que estava acontecendo, mas em vo.
Um tenso silncio pairou no ar. O som do barulho de um motor trouxe-os de volta  realidade. Pearce foi para o deque.
	Ol!  uma voz feminina gritou.
	E eu que pensei que teria paz e sossego  Pearce resmungou.
Cathy, que o seguira, ouviu a reclamao murmurada.
 Permisso para entrar no navio, capito  uma mulher num biquni vermelho, gritou, acenando.
Cathy levou alguns minutos para reconhec-la.
 Laura, que surpresa!  Pearce exclamou.
Cathy sentiu-se desapontada com a intromisso, mas isso no foi nada, comparado com o choque de ver quem estava acompanhando a empresria: David Collins.
Quando seus olhares se encontraram, ele acenou para ela.

CAPITULO IX

 Este  meu mais novo amigo, David Collins  Laura apresentou.
Cathy arrepiou-se, quando David pisou no iate de Pearce.
	Esta  a bab de Patty...  Laura franziu a testa.  Desculpe, mas esqueci seu nome.
	Cathy Fielding.
Cathy teve de fazer um grande esforo para estender a mo e cumprimentar David.
	Estou encantado  David declarou, segurando a mo delicada mais tempo do que o necessrio, o que fez Cathy pux-la num movimento instintivo.
	Querem um drinque?  Pearce ofereceu.
	Um copo de vinho seria muito bom  Laura disse, acomodando-se numa das espreguiadeiras.
Cathy ficou preocupada. No conseguia desviar os olhos de David. O que ele estava fazendo ali? Devia estar usando Laura como uma rota para chegar at Pearce.
Cathy trabalhara com David inmeras vezes e conhecia seu estilo. Ele usava qualquer pessoa, ou qualquer coisa, para conseguir uma matria. Ela o fitou, pensativa.
Ele no mudara nada naqueles dois anos. Continuava com os mesmos cabelos loiros e com um corpo atltico que chamava a ateno de qualquer mulher. Estava com a cmera fotogrfica pendurada no pescoo.
 Catherine?
De repente, ela percebeu que Pearce falava com ela e que no escutara nem uma palavra sequer.
	Desculpe  murmurou, pestanejando.
	Perguntei o que desejava beber  ele repetiu pacientemente.
	Limonada.
Cathy pousou o olhar em David.
	Duas cervejas, um copo de vinho e...
	Eu pego, Pearce.  Cathy precisava ganhar tempo para se recompor.  Quero dar uma olhada em Patty.
Pearce encolheu os ombros e sentou-se numa cadeira.
 Tudo bem  falou.  Obrigado.
Patty brincava com a mamadeirinha vazia. Cathy disse a si mesma que devia ter contado a verdade para Pearce na noite anterior. Agora, a presena de David Collins iria piorar o que j estava ruim.
 Parece uma bab de verdade  David declarou atrs dela, assustando-a.  Como est, meu bem?
Cathy virou-se e encarou-o com frieza.
 No me chame assim  avisou-o.  O que est fazendo aqui?
	Pensei a mesma coisa, quando a vi no carro de Pearce Tyrone.
	Era um dos reprteres na frente do porto!  Ela movimentou a cabea negativamente.  Pensei que estivesse trabalhando na Alemanha.
	Voltei.  David sorriu e deu um passo  frente.  Faz muito tempo. Voc continua linda.
Fitou-a de cima a baixo. Ela olhou para a porta, apreensiva, com receio de que Pearce aparecesse.
	Pare com essas gracinhas  ordenou.
	Estava falando srio. Dois anos, e aqui estamos de novo.
Ele estendeu o brao para tocar-lhe a face, mas ela deu-lhe um tapa na mo.
	No me toque  ordenou.  O que quis dizer com "aqui estamos de novo"?
	Estamos trabalhando juntos de novo. Obrigado por ter deixado o porto aberto ontem  noite.
	No o deixei aberto de propsito. Foi voc que eu vi pela janela?
Ele sorriu.
 Devo dizer que o que vi foi muito ntimo  declarou.
Cathy enrubesceu.
	Como ousa me espionar desse jeito?
	Oh, pare de bancar a vtima. Assim que a vi naquela tarde, liguei para o jornal e conversei com Mike. Ele contou como voc entrou na casa de Pearce Tyrone. Bela farsa. Bom trabalho.
	Pelo que me lembro, voc tambm  bom em enganar as pessoas.
	No venha com agresses. No agora, que somos parceiros de novo.
 No somos parceiros em nada.
Isso no pode estar acontecendo, ela pensou. Deve ser um pesadelo.
	Bem, Mike ficou encantado, quando telefonei  David gabou-se.  Disse que estava procurando um bom fotgrafo para trabalhar com voc. Implorou pelos meus servios. Mandou que eu fizesse meu preo.
	Eu no trabalharia com voc nem que meu emprego dependesse disso.
	Pare de se mostrar magoada, no combina com voc. Somos profissionais. O que aconteceu entre ns no deve nos influenciar agora. Juntos podemos publicar uma excelente reportagem.
Cathy revirou os olhos.
 No estou magoada  assegurou.  Mas no vamos fazer nada juntos. Essa matria 
minha. No quero nada, nem ningum no meu caminho.
David ignorou-a completamente.
	Tirei uma boa foto de voc e Pearce Tyrone beijando-se, ontem  tarde  declarou.  O que me diz?
	Digo que se no sair daqui neste instante vou gritar. Pearce Tyrone aparecer e vai expuls-lo do iate, talvez at entre com um processo contra voc no tribunal. O que acha?
David no pareceu nem um pouco preocupado.
	Se fizer isso, conto a ele quem voc , assim ns dois seremos expulsos juntos  falou.
	No se atreveria.
David ergueu uma sobrancelha, como se a estivesse desafiando.
	Voc sempre foi impossvel  Cathy disse.
	E voc sempre linda. No  de admirar que Pearce Tyrone tenha deixado voc entrar na casa dele sem fazer muitas perguntas.
	Ele acha que sou uma bab.
	Ele no a olha como se fosse uma empregada. Tenho algumas fotos que podem provar isso.

	Voc  maluco. Pearce Tyrone ama Jody Sterling.
	Quem est falando em amor? Falo de sexo. Jody Sterling no est por perto, e voc  uma mulher muito atraente.
	No gosto do jeito como sua mente funciona. Diga-me, como conheceu Laura?
	Brinquei de detetive.
Ele sorriu, contente consigo mesmo, em seguida olhou para Patty.
	Esta  Patty, certo?  indagou, erguendo a cmera.  Tire a mamadeira da boca da menina, por favor. Isso estraga qualquer foto.
	No vou tirar nada.
Cathy colocou-se entre a cmera e Patty. Estava irritada com a atitude de David, ento lembrou-se de que tirara fotos de Patty, e ficou irritada consigo mesma.
	Suponho que Laura no saiba que voc  fotgrafo de jornais  comentou, tentando desviar a ateno dele.
	Claro que no.  David riu.  Como est sua investigao? Muitas fofocas "quentes"?
	No vou lhe contar nada.
	No seja assim.  Ele franziu a testa.  Ou trabalha comigo, ou no vai conseguir nada.
	Isso  uma ameaa?
	Quem sabe?  David aproximou-se da geladeira e pegou duas cervejas e uma garrafa de vinho.  No se incomoda por eu me sentir  vontade? Disse a Pearce que viria aqui ajud-la. Ele vai comear a desconfiar, se no subirmos logo.
	Pouco me importa o que ele pense.
	Ah, ?  David comeou a subir para o convs.  Bem, se pouco se importa, conte a verdade.
Cathy no teve chance de replicar, porque Pearce apareceu naquele instante.
	Pensei que tivesse se perdido  Pearce comentou.
	Estava conversando com sua encantadora bab  David disse com um sorriso, e em seguida olhou diretamente para Cathy.  Estava dizendo alguma coisa?
Aquilo era um desafio. David estava provocando-a, querendo ver se ela possua coragem para contar a Pearce toda a verdade, ou se aceitava trabalhar com ele.
Cathy sorriu e olhou para Pearce. Se contasse quem David era, tinha certeza de que David falaria quem ela era, consequentemente, os dois seriam expulsos do iate.
	Eu dizia que fiz um almoo light  ela declarou.  Devo lev-lo ao deque?
	Boa idia  Pearce falou.  Quer que eu a ajude?
	No, obrigada.
	Vou levar Patty, ento.  Pearce tirou a menina da cadeira.  Acho que ela precisa de ar fresco.
Quando Pearce virou-se de costas, David lanou um olhar triunfante para Cathy. A expresso dela era de total frieza. David podia achar que estava vencendo o jogo, mas Cathy no tinha nenhuma inteno de trabalhar com ele. Pelo contrrio, decidira contar a verdade a Pearce, logo que ficassem sozinhos.
Durante o almoo, ela pouco falou, mas olhava Pearce a cada momento, tentando imaginar a reao dele, quando soubesse de tudo.
Duvidava de que a perdoasse, e sentiu um forte aperto no peito ao pensar naquilo.
Pearce fitou-a. Ela desviou o olhar, no sabendo lidar com as emoes que sentia. David, por outro lado, mostrava-se confiante e  vontade.
	Aqui no  maravilhoso?  Laura comentou, pegando seu copo de vinho.
	Concordo  David disse.  Mas no gosto de velejar, porque enjo facilmente, s que quando o tempo est assim, ensolarado,  maravilhoso.
	O que faz para viver?  Pearce indagou.
	David est no ramo de seguros  Laura respondeu.  Est de frias aqui, e nos conhecemos ontem  noite, em minha festa.
	Entrei sem ser convidado  David falou.  Ouvi sobre a festa, atravs do amigo de um amigo.
	Ah, no entrou assim coisa nenhuma  Laura protestou, batendo no joelho dele.  Convidei todo mundo. E como nos divertimos! Eu disse que deveria aparecer, Pearce.
Pela primeira vez, ocorreu a Cathy que Laura Houston no estava apenas atrada por Pearce, como tentava faz-lo sentir cime.
	David chegou tarde e foi embora hoje de manh  a empresria contou.
	Ns nos divertimos muito  David confirmou.
	Bem, esto com uma aparncia tima, para quem passou a noite em claro  Pearce disse.
	Oh, voc me conhece! Posso ficar numa festa at o amanhecer  Laura falou, olhando para David.  Acho que deveramos repetir tudo esta noite.
	timo  David concordou, sorrindo.  Que tal uma festa para ns quatro? Podamos ir at Monte Cario, jantar e nos divertir no cassino.  Olhou diretamente para Cathy.  Que tal?
	No posso ir  Cathy respondeu sem hesitar, encarando o ex-noivo.  Estou aqui para cuidar de Patty.
	No pode tirar uma noite de folga?
	No, at o final da semana.
Cathy levantou-se antes que Pearce a interrompesse e dissesse que podiam sair naquela noite. No queria um passeio a quatro, muito menos estar onde David estivesse.
	Com licena  pediu, pegando Patty de sob o guarda-sol.  Acho que Patty est pronta para tirar uma soneca.
	Ento, Pearce, Patty  sua filha?  David perguntou.
Cathy hesitou na porta de acesso aos camarotes, ento sorriu ao ouvir Pearce dizer:
 Ela  a luz de minha vida.
Durante o almoo, David tentara inutilmente trazer assuntos pessoais para a conversa, porm Pearce sempre fugira.
Cathy caminhou o mais rpido que pde para um dos camarotes. No foi nada fcil deixar Patty no carrinho, pois a menina parecia cansada e irritada.
 Vamos, querida  murmurou.  No est perdendo nada l fora, pode ter certeza.
Os olhinhos de Patty abriam e fechavam, como se ela estivesse lutando contra o sono, at que perdeu a batalha. E foi naquele instante que David apareceu.
Cathy encarou-o e notou que ele no estava nada contente.
	Qual o problema?  ela indagou com sarcasmo.  Pearce no respondeu a nenhuma de suas perguntas?
	Sabe muito bem que no.
	Perdendo o jeito?
	No aposte nisso. Conseguirei o que quero a qualquer momento.
	Suba e consiga  ela retrucou com raiva.  E pare de me seguir como um cachorrinho. Pearce pode suspeitar.
	No vejo por qu. Voc  uma mulher muito atraente.  David abriu a geladeira e pegou outra cerveja.  De qualquer maneira, eu disse que vim buscar uma bebida.
	No acha que j bebeu demais? Quanto mais beb, menos cuidadoso fica com as coisas que diz.
	E da? Com medo de que seu namorado descubra que voc o engana?
 Pearce no  meu namorado. 
David deu de ombros.
 Talvez  falou.  Mike disse que voc tem de fazer de tudo para conseguir uma boa matria.
	Est sugerindo que venho tentando seduzir Pearce para conseguir uma matria?
	Oh, no venha com moral para cima de mim. Estou me referindo ao fato de voc no reclamar, quando ele a beija, ao modo como voc o olhou durante o jantar de ontem  noite. Est apaixonada, ou utilizando-se de sua feminilidade para obter o que deseja?
	No julgue os outros por si mesmo. Pode ter usado essas tticas com Laura, mas eu...
	No est em posio de passar sermo. Est na casa de Pearce com falsas pretenses, no importa o que sinta.
Cathy fitou-o. David tinha razo. Ela no estava em posio de ensinar tica para ningum.
 De qualquer modo, faa de tudo para que eu possa tirar fotos de vocs dois juntos  David ordenou, tirando um minigravador da bolsa da cmera.  Vai precisar disso. Mike disse que voc
no tinha um.
Cathy olhou para o pequeno aparelho com desdm, mas pegou-o. Era melhor fingir que estava do lado de David. Se dissesse que no pretendia trabalhar com ele, que no tinha nenhuma inteno de gravar nada do que Pearce dissesse, ele faria um escndalo, ainda mais estando bbado. Colocou o minigravador na bolsa e olhou para o carrinho, onde Patty balbuciava no sono.
	E melhor voltar para o deque  murmurou a David.  Alm de estar perturbando, vai acordar Patty.
	No se preocupe, j vou.  David segurou a cmera.  S vou tirar uma foto de Patty.
 Prefiro que no tire fotografias no meu iate  Pearce falou com frieza.
 Pearce, voc me assustou!  David protestou.  No o ouvi descendo a escada.
Cathy estava preocupada, perguntando-se quanto da conversa Pearce teria ouvido.
	No se incomoda se eu tirar uma foto, no ?  David insistiu.  Dou o negativo, se quiser. Ser uma grande recordao, num dia de chuva.
	No temos muitos dias de chuva aqui  Pearce disse.  Mas, por falar nisso, vim avisar que o tempo est mudando. Acho melhor voltarmos.
Cathy comeou a relaxar. A julgar por suas maneiras, Pearce no tinha ouvido nada. David, por outro lado, parecia inquieto.
  mesmo?  indagou, fazendo uma careta.
	Enfrentaremos uma tempestade? No sou bom marinheiro, com o mar agitado.   
 Tempestade? Acho que no  Pearce respondeu.  O boletim anunciou tempo bom, antes
de sairmos.
Cathy seguiu os dois para o deque. O cu ainda estava azul, mas a brisa soprava forte, fazendo o iate danar sobre as ondas.
	No me sinto bem  David reclamou, encostando-se na grade.
	No seja bobo, querido  Laura ralhou, rindo.  E s uma brisa. Aposto que no tinha notado, at que Pearce avisou-o.
	Bem, acho melhor irmos, antes que as coisas piorem.
Cathy tentou esconder um sorriso. No via a hora de se livrar de David. Laura vestiu uma camiseta por cima do biquni e ficou na ponta dos ps para beijar Pearce na face.
	Eu o vejo qualquer dia desses  murmurou.
	Aparea para jantar amanh  Pearce falou.
	s oito?
Ele movimentou a cabea afirmativamente. Cathy no estava nada feliz. Ficou ao lado de Pearce, observando Laura e David voltarem para o outro barco.
	O convite inclui David?  indagou.
	Acho que ela no levar David, voc acha?
	No sei.
	Desapontada?
	Desapontada por ter convidado Laura para jantar, ou desapontada por David no ir?
	As duas coisas.
 No  da minha conta quem voc escolhe para jantar em sua casa, e quanto a David... Para
ser honesta, no gostei dele.
	No?  Pearce ergueu uma sobrancelha, irnico.  Ele pareceu gostar d voc.  Acenou para Laura, ento voltou-se para Cathy.  De qualquer maneira, convidei Laura para jantar para falar de negcios. Quer um drinque?
	Achei que quisesse voltar para a baa. No h ameaa de tempestade?
	Estamos a salvo, por enquanto.
Pearce aproximou-se das espreguiadeiras e pegou uma garrafa de vinho.
	Bem, eu estava tomando limonada, mas...  Cathy encolheu os ombros.  Por que no?
	Por que no?
Ela franziu a testa. Sentia que Pearce estava estranho, que havia algo de diferente. Ele verteu vinho em dois copos, entregando um a Cathy. Quando seus olhares encontraram-se, ela ficou arrepiada.
Cathy ansiara para que Laura e David partissem para que pudesse ficar a ss com Pearce e contar toda a verdade. Agora que o momento havia chegado, comeava a achar que no era uma boa idia dizer quem era.
 Ainda est bravo comigo?  perguntou, recordando que antes de Laura chegar, estavam
discutindo.
Pearce passou a mo no rosto e sorriu.
	Acho que mereci o tapa  disse.  E no estou bravo.
	Desculpe por ter feito aquelas perguntas idiotas a respeito de Jody. Eu...
	No eram perguntas idiotas. Posso entender por que quer tanto saber sobre ela.
	Acho que no.
Cathy passou a mo nos cabelos. No sabia por onde comear a confisso. Estava com medo da reao dele. Pearce afagou-lhe uma das faces.
 No consigo manter as mos longe de voc  sussurrou.  Nunca me senti assim.
Cathy estremeceu. Entreabriu os lbios para dizer alguma coisa, mas no podia deixar que as emoes a dominassem. Precisava dizer quem era, antes que se deixasse cair em tentao.
	Nunca me senti assim com Jody  Pearce confidenciou.
	No  de minha conta.
Cathy tentou afastar-se, mas ele impediu-a.
 Quero fazer amor com voc, Catherine. Quero fazer amor com voc agora.
 Precisamos conversar, primeiro. 
Pearce beijou-a.
 Podemos conversar depois  murmurou.  Prometo.
Cathy tinha suas dvidas. Desejava-o muito, mas sentia que era errado entregar-se.
	No quero estragar uma famlia  disse.
	No h nenhuma famlia para estragar.
	No importa que no queira casar com Jody, mas h Patty, e vocs so uma famlia.
	Patty no  minha filha.
	Mas pensei...
	Sei o que pensou, mas estava errada.
	Quem  o pai de Patty? Por que ela est com voc?
	Tantas perguntas...  Pearce acariciou os cabelos loiros e sedosos.  Mas tudo o que quero agora  fazer amor com voc.
Beijou-a com ardor.
 Podemos conversar depois  sussurrou.  Conto sobre Jody, e voc me conta a histria de sua
vida, mas agora s consigo pensar em uma coisa.

CAPITULO X

O camarote estava escuro, e Cathy levou algum tempo para acostumar-se. Ela olhou para a cama e ficou apreensiva. Como poderia fazer amor com um homem para quem mentia?
 Deixe a porta aberta, caso Patty acorde  Pearce falou, colocando os copos de vinho no criado-mudo e tirando a camisa.
Sentou-se na cama e olhou para Cathy, parada entre os batentes da porta.
	Est com dvidas?  perguntou.
	Estou.
	Venha aqui.
Cathy aproximou-se devagar. Pearce comeou a desabotoar o short dela, em seguida jogou-o no cho. Fitou-a, depois beijou-lhe o umbigo.
	Voc me deseja?  perguntou.
	Sabe que sim.
	Mostre-me.  Pearce afastou-se.  Tire a camiseta e o suti.
Cathy obedeceu.
 A calcinha  ele murmurou.
Ansiosa para t-lo dentro de si, ela praticamente arrancou a calcinha.
	Voc tem um corpo maravilhoso  Pearce elogiou.
	Posso ir para a cama?
	Como?
	Eu quero voc.
Pearce sorriu e levantou-se, tirando as roupas com rapidez. Cathy queria sentir o peso do peito viril contra seus seios, as mos msculas percorrerem seu corpo, em longas carcias. Por isso, surpreendeu-se, quando ele se deitou na cama, puxou-a pela cintura, afastou as coxas bem torneadas com o joelho e penetrou-a.
Esperava que Pearce a acariciasse, mas ele comeou a movimentar-se ritmadamente, e ela foi consumida por uma onda de prazer sem fim, at que entrou em xtase, gritando o nome de Pearce, sentindo que ele tambm chegava ao clmax.
Por um longo momentos, ficaram deitados, abraados.
	Voc  linda  Pearce murmurou.
	Querido...  Cathy sussurrou, ento aconchegou-se contra o corpo musculoso e dormiu.
Cathy abriu os olhos e sentiu-se desorientada.
 Pearce?
Saiu da cama e olhou suas roupas espalhadas no cho. Fazer amor com Pearce antes de contar toda verdade fora um erro.
Tinha a impresso de que o camarote estava balanando. Olhou pela janela e viu que se aproximavam da costa. Vestiu-se e saiu para o corredor, onde encontrou o carrinho de Patty, mas a menina no estava l.
Subiu ao deque e viu Pearce na cabine, com Patty a seu lado, acomodada na cadeirinha.
	Boa noite  ele cumprimentou.
	Boa noite, capito.
	Estaremos em casa em poucos minutos. Pearce voltou a ateno para o mar. Cathy observou-o amorosamente.
 Dormi muito tempo?  perguntou, subindo para a cabine.
Pegou Patty no colo e sentou-se.
	Horas  respondeu Pearce.  No quis perturb-la. Achei que estivesse cansada.
	E estava.
O sol j descera no horizonte. Pearce comeou a manobrar o iate para ancor-lo na marina.
	Sabe que precisamos conversar  ela disse.
	No esqueci.
Ele lhe lanou um olhar frio. Cathy franziu a testa. Havia algo errado. Henri ajudou Pearce a atracar o iate. J estava completamente escuro, quando desembarcaram.
 Cuide de Patty  Pearce falou a Cathy.  Tenho umas coisas a fazer, antes de ir para casa.
Cathy sentiu-se aliviada ao entrar na manso. O cheiro que vinha da cozinha era delicioso, e ela abriu o forno para ver o que era. Fechou a porta e franziu a testa. Ou Henri tinha escondido seus dotes culinrios, ou aquela caarola de carne e a torta de ma eram comida congelada.
No havia tempo para pensar naquilo. Patty estava irritada, queria ser alimentada e trocada. Cathy decidiu lev-la para o quarto.
Haviam se passado duas horas, quando Cathy finalmente colocou a menina no bero, mas Pearce ainda no chegara. Cathy sentou-se na poltrona ao lado do bero, sentindo-se cansada, emocional e fisicamente.
Ouviu passos no corredor, em seguida Pearce abriu a porta.
	Como Patty est?  ele perguntou.
	Est dormindo.
	Bom.
Ele fez meno de sair do aposento.
	Pearce?
	O qu?
	Alguma coisa errada?
	O que poderia estar errado?
	Bem... eu...
Cathy levantou-se. Sentia que ele a estava tratando com frieza, e seu arrependimento por t-lo enganado tanto tempo tornava-se maior a cada minuto.
	Precisamos conversar  declarou.
	Eu sei, mas agora no, estou cansado. Pearce atravessou o corredor e entrou em seu quarto. Cathy ficou olhando para a porta, magoada. Ser tratada com tanta frieza, depois de terem feito amor, era humilhante.
Furiosa, levantou-se e foi na direo do quarto dele. Abriu a porta sem bater, encontrando-o de costas e falando ao telefone.
 Talvez eu tenha falado demais  ele dizia, irado.  Bem, ela sabe que no sou o pai de Patty, mas no sabe que voc  minha meia-irm, nem que Jonathan Briars  o pai de Patty...
Cathy ficou pasma com aquela declarao, e Pearce olhou sobre o ombro naquele instante. Seguiu-se um momento de silncio, ento ele disse:
 Escute, Jody, tenho que desligar. Falamos depois.
Cathy observou-o desligar o telefone.
	Patty  sua sobrinha?  perguntou.
	Isso no  da sua conta. Eu no entraria aqui agora, se fosse voc.
	Por qu? Por que est se comportando desse jeito? Acho que me deve mais do que indiferena.
	Oh, acha que devo algo a voc?
	Eu...
	No me olhe assim, Catherine.
	Assim como? Como uma mulher que se sente magoada, usada? Bem, desculpe, mas  como voc faz com que eu me sinta.
	Eu?  Pearce deu-lhe as costas e comeou a desabotoar a camisa.  Saia, vou tomar banho.
	Por que est me expulsando? Esta tarde voc agiu como um homem...
	Apaixonado? No a estou expulsando, mas se no sair, vou fazer amor com voc de novo.
Cathy sentiu as faces enrubescerem.
	No compreendo voc  murmurou.
	Eu tambm no me compreendo, neste momento.  Ele jogou a camisa numa cadeira.  Tudo o que sei  que a possu essa tarde e quero possu-la de novo.
	Por que est to bravo?
	E que no quero sentir desejo por voc.
	Est apaixonado por outra mulher?
	Eu estava esperando que me fizesse mais perguntas.  Pearce riu.  Voc  boa, muito boa.
	No sei o que quer dizer.
	No? Por que no toma banho comigo? L eu lhe contarei tudo. Direi como descobri que Jody Sterling  minha irm, mas se seu namorado aparecer na janela, no vai conseguir tirar fotos... decentes.
Cathy no acreditava no que ouvia.
	Sabe quem sou?  indagou.
	Claro que sei.  Pearce abriu o fecho da cala jeans.  Quer tomar banho comigo?
	Voc no entende...
	No? Acho que entendi tudo muito bem. Deixe-me ver...  para voc ser sensual, conseguir toda a informao que puder, e David deve tirar as fotografias.
	Ouviu David conversando comigo?
	O final da conversa, mas eu sabia quem voc era desde o incio.
Cathy estava incrdula. Pearce caminhou at o criado-mudo, abriu a gaveta e colocou alguns papis sobre a cama. Ela pegou umas folhas e ficou surpresa ao l-las.
Era sua vida. Ali encontravam-se seu endereo, seus empregos anteriores e at mesmo suas caractersticas, dadas por um ex-patro.
	No ia deixar que qualquer uma cuidasse de Patty  Pearce declarou.
	Como conseguiu estas informaes?
	Paguei por elas.  Ele sorriu.  Pode-se ter tudo, quando se paga bem. Passaram isso para mim, via fax, uma hora depois de voc ter chegado.
	Algum estpido detetive particular?
	Ele foi bastante eficiente, mas voc colaborou muito ao dar seu verdadeiro nome.
	Por que no me expulsou daqui?
	Eu me fiz a mesma pergunta. Acho que no pude resistir. Meu primeiro impulso foi expuls-la, mas voc apareceu em meu escritrio, to linda e deslumbrante, que no tive coragem.
Ela sentiu-se apreensiva.
 Sou um homem de sangue quente, e j que a farsa tinha comeado, queria ver at onde voc
iria  prosseguiu.  E voc foi at o fim.
Cathy sentia-se humilhada. Queria chorar, mas no permitiu que as lgrimas cassem.
	No acredito que tenha sido to calculista  murmurou.
	Como as mulheres tm facilidade em virar a situao! Voc mentiu para mim, enganou-me e tentou invadir minha vida. E me acusa de ser calculista!  Pearce abriu o zper da cala e comeou a baix-la.  Vou tomar meu banho. Quer vir comigo?
	V para o inferno!
	Se brinca com fogo, deveria saber que pode se queimar.

CAPITULO XI

Cathy fez a mala. Queria sair daquela casa o mais rpido possvel. Virou a bolsa de cabea para baixo em cima da cama para procurar a chave do carro que alugara, mas no a encontrou.
Tentou recordar onde a havia colocado. Abriu as gavetas do criado-mudo. Nada. Sentou-se na cama, em pnico. Tinha certeza de que colocara a chave na bolsa.
Disse a si mesma que em pouco tempo muita coisa mudara. Como podia ter se apaixonado to rpido? Como deixara que as emoes a dominassem? Levou as mos ao rosto e comeou a chorar.
O pior de tudo era que Pearce acreditava que ela o seduzira s para conseguir uma matria jornalstica. Cathy no o culpava por ach-la uma vigarista.
S que no o seduzira. No era uma femme fatale, aquilo no era de sua natureza. Era uma mulher comum, que se apaixonara pelo homem errado. Pearce soubera da farsa desde o incio e permitira que prosseguisse. E, friamente, tirara vantagem da situao.
Cathy ficou arrepiada ao recordar as palavras dele: "Se brinca com fogo, deveria saber que pode se queimar". Enxugou as lgrimas. No ia ter pena de si mesma. Ps-se de p, arrumou a bolsa, pegou a mala e saiu do quarto.
Antes de ir, foi olhar Patty. A criana dormia tranquilamente. Cathy inclinou-se sobre o bero e deu-lhe um beijo na bochecha.
Mais uma vez, as lgrimas rolaram por suas faces. Sentiria saudade de Patty. Pegou a mala e desceu a escada rapidamente. Estava na cozinha, procurando a chave do carro, quando Pearce apareceu.
 Procurando alguma coisa?  ele indagou com frieza.
Cathy ignorou-o. Tinha receio de no ser capaz de falar com ele, sem gritar. Continuou sua procura, abrindo portas de armrios e gavetas.
 Talvez eu possa ajudar  Pearce ofereceu-se. Cathy fitou-o. Ele estava encostado na pia, jogan
do a chave do carro dela para cima e para baixo.
 Onde a encontrou?  ela indagou.
 No mesmo lugar onde encontrei isto. 
Pearce mostrou um rolo de filme.
	Esteve mexendo em minha bolsa!  Cathy exclamou com fria.
	No  nada agradvel ter a privacidade invadida, concorda?
	 um canalha de primeira categoria.
	Vindo de algum que me enganou tanto, vou considerar isso um elogio.
Ela teve vontade de pegar qualquer objeto e atirar na cabea dele.
 Sei que o que fiz foi errado, mas voc  desprezvel  retrucou.
 A nica coisa que fiz foi jogar seu jogo.
Cathy aproximou-se dele.   
	D-me a chave  exigiu, tentando peg-la, em vo.
	Calma.
	Exijo que me d a chave.
	No tem o direito de exigir nada.  Ele sorriu e colocou no bolso da camisa a chave e o rolo de filme.  Vamos conversar.
	No tenho o que conversar com voc.
	Oh, tem sim. Tem todas as respostas, no? No precisa mais usar de seduo.
	Nunca tentei seduzi-lo.
Pearce riu. Cathy observou-o ir at o fogo e tirar do forno um prato refratrio.
	No sei quanto a voc, mas estou com fome  ele disse.
	Se acha que vou comer com voc...
	De repente, ficou muito petulante.  Ele olhou para a carne.  Ficou um pouco assada demais, mas tudo bem.
	Foi voc quem cozinhou?
	Henri. Ele  um bom chef.
	Ento, por que precisava de uma cozinheira?
	No precisava. Foi uma maneira de mant-la ocupada e impedir que ficasse por a bisbilhotando.
Cathy recordou a noite em que tentara fazer o jantar, a carne queimada e as verduras e os legumes supercozidos. Ficou irritada.
	Odeio voc  falou.
	No se faa de vtima. Sei que contratou um bistr para entregar a comida. As cmeras de segurana instaladas no porto filmaram o furgo do Le Gardin chegando s oito e meia, ento voc deixou o porto aberto para seu namorado, que chegou precisamente s oito e quarenta e cinco.
 Sabia quem era David antes de v-lo em seu iate?
	Sabia. Acho que foi isso que me deixou irritado.
	No entendi.
Pearce colocou um suporte de madeira sobre a pia e pousou o prato refratrio sobre ele.
	Esquea. Sabe, eu daria a entrevista, se voc pedisse.
	No, no daria. S est dizendo isso para que eu me sinta pior.
	Estou conseguindo?
	Est. Seja l o que pense, no quis seduzi-lo e no estou trabalhando com David Collins. O porto ficou aberto por um descuido.
Pearce no acreditou.
 E incrvel como parece inocente  declarou.  Estou tentado a acreditar em voc, embora saiba a verdade.
Fez uma pausa e aproximou-se dela.
 E uma boa atriz  continuou.  Na verdade, muitas vezes acreditei que era a pessoa carinhosa
que fingia ser.
Cathy abanou a cabea com tristeza.
	Quanto a hoje  tarde...  murmurou.  Tanta frieza... No foi correto.
	E o que voc fez foi correto? Tem o direito de me seduzir, mas eu no?
	No foi o que eu quis dizer.
	Pare com isso. Flertou comigo, entrou no quarto de Patty quase nua e disse abertamente que me desejava, mas insistia em perguntar sobre Jody. Por qu?
	Porque eu estava preocupada.
 Preocupada em conseguir um boa reportagem. 
Pearce deslizou o dedo indicador na face dela. Cathy recordou o prazer que sentira naquela tarde.
	No minta para mim  ele falou.  Queria um bom artigo e estava preparada para fazer qualquer coisa para consegui-lo.
	Chega!
Ela tentou recuar, mas viu-se encurralada contra a pia.
	Voc gostava desse jogo  ele sussurrou.
	No gostava, no.
	Quer dizer que no gostou do que aconteceu esta tarde no iate?
	Gosta de ser elogiado, no? Vou lhe dizer uma coisa: no senti nada.  Cathy queria mago-lo, e o nico meio que encontrou foi ferir o ego dele.  Eu estava sendo sedutora, esqueceu?
	Saiu-se muito bem.
Pearce inclinou a cabea e beijou-a. Ela tentou empurr-lo, mas, recordando o prazer que ele lhe dera no iate, entregou-se.
 Merece ganhar o Oscar  ele disse. 
Cathy passou a mo nos cabelos, irritada pela maneira como respondera ao beijo.
 No me toque nunca mais  declarou.
Pearce sorriu.
 Seu tom de voz soa ultrajado, em contradio aos seus lbios  declarou.
Cathy sabia que ele estava com a razo. No importava o dissesse, no tinha como negar o que sentia. Respirou fundo, tentando ser racional.
	O que vai escrever a respeito de Jody Sterling?  ele perguntou, encarando-a.
	Ah!  ela exclamou, triunfante, pois tinha a chance de deix-lo preocupado.  No sei o que vou escrever sobre ela, mas sei exatamente o que vou escrever sobre voc. Vou dizer que  o homem mais frio e calculista que j conheci.
	Em outras palavras, vai escrever um artigo s com a sua verso da histria. No se utiliza da verdade?
	O que vou escrever  a verdade.
	A verdade  que estava disposta a vender seu corpo por uma histria. No sei se realmente sou o homem mais frio que conheceu, pois respondeu fervorosamente aos meus carinhos.
	Voc  um canalha.
Cathy ergueu a mo, mas Pearce segurou-a antes de receber um tapa no rosto.
	J me acertou, hoje, mas agora eu dou o tom e voc dana  ele declarou.
	E o que pensa.  Ela soltou a mo.  Sou eu quem dou as cartas. Sei a verdade sobre Jody e sei que o pai de Patty  um proeminente poltico.
	Vai escrever o artigo sem saber de toda a verdade?
	Um segredo desses no pode ser escondido para sempre.
Cathy s queria quebrar a frieza dele, pois no escreveria nada a respeito de Jody Sterling.
	No sei se esse segredo vir  tona. S Laura sabe da verdade.
	Laura?
	, mas ela  confivel. Escute, escreva o que quiser a meu respeito, mas no escreva nada sobre Jody. A verdade magoar muitas pessoas.
 Tudo bem. Posso ter a chave do carro, agora?
Pearce fitou-a, desconfiado, ento entregou-lhe a chave.
	Obrigada  ela agradeceu, indo pegar a mala.
	Aonde vai? O aeroporto ainda est em greve.
	Vou para um hotel.
	Onde David Collins deve estar esperando. Aposto que no perder tempo e correr para os braos dele, contando quem  o verdadeiro pai de Patty.
	Tem certeza de que Laura j no contou?
	Vai voltar para David?
 Quem sabe?  Cathy torcia para que ele ficasse acordado a noite inteira, pensando no que ela escreveria.  O que foi mesmo que voc disse? Ah! "Quem brinca com fogo, deveria saber que
pode se queimar".

CAPITULO XII

 Venha aqui, Fielding!  Mike gritou.
Cathy levantou-se rapidamente de sua mesa, nem um pouco surpresa com o tom de voz agressivo de seu editor. Desde que ela voltara da Cote d'Azur, havia seis semanas, ele s encontrava motivos para critic-la.
Aquela perseguio devia-se, com certeza, ao fato de ela no ter escrito o artigo sobre Pearce Tyrone. Tivera sorte por Mike no demiti-la, mas ele tentava tornar sua vida um inferno, dando-lhe matrias de pouca repercusso.
Respirou fundo, entrou no escritrio dele e fechou a porta, no querendo que seus colegas de trabalho ouvissem mais aquela repreenso que receberia de Mike.
	Esta  a matria sobre a indstria Edwin?  ele questionou.
	.
Cathy sabia que no havia nada de errado com aquela matria, porque fizera um trabalho de pesquisa completo, colhendo muitas informaes.
	Est um lixo  ele falou.
	Lixo?
	No h nada revelador aqui.
	Eu sei. Eu lhe disse isso, antes que me mandasse para l. Se quisesse algo revelador, eu teria de inventar.
	E no pode inventar nada, certo? Como no escreveu nem uma palavra sequer sobre Pearce Tyrone. O que foi mesmo que voc disse? "Nada a declarar. No  tico escrever sobre fatos, sem conhecer a verdade".
 No quer que sejamos processados, quer?
Mike moveu a cabea negativamente.
 David Collins no apareceu com nem uma fotografia decente sequer  reclamou.  Exceto
uma de voc e Pearce se beijando, mas acho que todos os jornais tm aquela foto.
Cathy comeou a sentir nuseas.
	J expliquei isso  declarou.
	Oh, eu sei que aquele homem  um sedutor de mulheres. J vi as fotos que chegaram ontem.
	Que fotos?
Mike puxou da prateleira atrs de si, duas fotos de Pearce e Laura Houston saindo de um restaurante. A empresria olhava para ele, encantada.
	Laura Houston  a empresria de Pearce  Cathy observou, tentando manter o tom de voz neutro. Mas no ntimo, estava enciumada.  Deve ter sido um jantar de negcios.
	No sabemos o que est acontecendo, sabemos? No, porque voc no descobriu nada.
	Quanto tempo mais vai ficar me punindo por eu no ter escrito nada sobre Pearce Tyrone? Estou avisando, se isso continuar, peo minha demisso.
Cathy estava furiosa, mas no sabia se era com a atitude do patro, ou por ter visto aquela foto de Laura e Pearce de braos dados. S que tinha de medir as palavras, pois no podia se dar ao luxo de perder o emprego.
Foi um alvio, quando o telefone tocou, e Mike atendeu de imediato. Cathy sentiu-se enjoada, tentou conter a nsia um pouco mais, ento correu para o banheiro feminino.
Ficou l uns quinze minutos, sentindo-se fraca. Jogou gua no rosto e olhou-se no espelho. Estava plida. Vinha perdendo peso, ultimamente, o que a surpreendia, pois achava que quando uma mulher ficava grvida, a tendncia era engordar.
	Tudo bem?  uma das garotas do escritrio perguntou.
	Tudo bem  Cathy murmurou, abrindo a bolsa para pegar o batom.
	No deve deixar Mike irrit-la. Sei que ele vem tratando voc de modo insuportvel, ultimamente, mas...
	Est tudo bem, Sally.  Cathy passou batom nos lbios e guardou-o na bolsa.  Agradeo sua preocupao.
Saiu do banheiro antes que Sally comeasse a lhe dar conselhos sobre como lidar com Mike. Ao voltar para o escritrio do editor, achou que continuaria a ouvir censuras, mas ele fitou-a e, milagrosamente, sorriu.
	Tenho outra matria para voc, Cathy.
	Tem?
	V at o restaurante francs.
Ela sabia a que restaurante ele se referia. Era um estabelecimento que ficava na mesma quadra do jornal.
	Agora?  Cathy indagou, sentindo o estmago protestar violentamente.
	Agora.
	No estou me sentindo bem. No pode pedir para outra pessoa? Acho melhor eu ir para casa.
	No posso mandar outra pessoa, tem que ser voc. Pea uma boa comida enquanto estiver l. Far com que se sinta melhor.
	No posso, preciso ir para casa.  Cathy andou na direo da porta.  Irei amanh  tarde, ou mande outra pessoa. Ligo e converso com voc depois.
 Isso  importante. Seu emprego pode...
Ela fechou a porta antes que Mike terminasse a sentena. No queria ouvir mais nenhuma ameaa. No conseguiria entrar em nenhum restaurante, mesmo que seu emprego dependesse daquilo, pois seu estmago no agentaria.
Pegou o casaco, pendurado em sua cadeira, desligou o computador e foi para o elevador.
O quarteiro onde situava-se a sede do jornal era movimentado, mas naquele dia encontrava-se deserto, talvez porque o dia estivesse frio, e o cu, nublado.
Cathy morava no bairro havia sete anos, e seu apartamento ficava a minutos de distncia do jornal. Os aluguis eram carssimos, ali, mas at ento ela no se importara com o preo.
Agora, como me solteira, no poderia pagar por aquele apartamento, pois as despesas com um recm-nascido eram grandes. Tentou manter a mente ocupada, pensando em como seria cuidar do beb, porm foi impossvel no recordar as fotos de Laura e Pearce, que acabara de ver. Fizera tantas perguntas sobre Jody, quando, na verdade, devia ter se preocupado com Laura.
Lembrou o dia que passara no iate de Pearce e fechou os olhos, fazendo um grande esforo para no chorar.
 Catherine?
Cathy virou-se, assustada, reconhecendo a voz profunda.
Pearce fitou-a e franziu a testa, notando como ela estava magra e plida.
	Pensei que ainda estivesse na Cote d'Azur  Cathy comentou com aspereza, dominando a emoo de v-lo.
	Voltei ontem. No recebeu meu recado? Liguei para seu editor e perguntei se eu e voc poderamos almoar juntos. Queria v-la e pensei que o mtodo mais rpido era...
	Quer que eu perca o emprego?  ela questionou.  Tem idia da hostilidade que venho enfrentando, porque no escrevi uma nica frase a seu respeito?
	Eu li seu jornal todos os dias, procurando...
	Eu disse que no escreveria nada, mas agora que telefonou para Mike, ele vai comear a me perturbar de novo. No que estava pensando?
	Em voc.
Aquela resposta deixou Cathy mais irritada.
 Quer me destruir?  perguntou, irada.  Sei que o que fiz foi errado, mas j pedi desculpas. Por que no me deixa em paz?
	Pare de ser to dramtica. Eu disse ao seu editor que concederia a voc uma entrevista exclusiva. Desculpe no ter acreditado que no publicaria que Jody era minha meia-irm e tudo o mais. Na poca, pareceu-me uma boa idia deixar voc partir e esperar para ver o que aconteceria.
	Foi um teste?
	Foi. Mas agora acredito, pois j se passou muito tempo.
	Agora sente-se culpado por no ter acreditado em mim. Escute, no quero suas desculpas e no estou interessada em entrevist-lo. Procure outra pessoa.
Cathy virou-se e comeou a caminhar.
 No quero outra pessoa!  Pearce exclamou. Ela parou, pensando em voltar e mand-lo para o inferno, mas sentiu fortes nuseas e curvou o corpo levemente para frente, pousando a mo na barriga.
	Tudo bem?  ele indagou.  Vou lev-la para casa. Pode andar?
	Estou bem, meu apartamento no fica longe.
	Eu sei.
	Claro, tem uma pasta cheia de informaes a meu respeito.
Pouco depois, paravam na frente do prdio, e Cathy tirou as chaves da bolsa.
	J estou bem  ela informou, querendo que Pearce fosse embora.
	Vou subir com voc.
Ele tirou as chaves da mo dela. Ao entrarem no apartamento, Cathy sentou-se no sof, e Pearce foi para a cozinha para pegar um copo de gua.
	Est melhor?  ele perguntou depois de v-la tomar dois goles.
	Estou. Acho que  cansao. Tenho trabalhado muito.
Cathy achou que se contasse que estava grvida, ele ficaria chocado e ofereceria dinheiro. E no era dinheiro que ela desejava.
	Como est Patty?  indagou.
	Est feliz, em companhia da me.
	Jody recuperou-se completamente?
	Mais ou menos. Est descansando em minha casa de campo.
	Isso deve estar aguando o interesse da imprensa  ela comentou.
	Talvez. Acredito que a verdade vir  tona, qualquer dia desses.
Cathy colocou o copo de gua sobre a mesinha de centro.
 Eu no divulgarei nada  defendeu-se.
 Eu sei, mas andei pensando no que me disse. Era um segredo muito grande para ser escondido por tanto tempo. Jody e eu discutimos e chegamos  concluso de que no podemos mais ficar em silncio. Isso est afetando minha vida, meus relacionamentos.
Cathy pensou que Pearce estava se referindo a seu relacionamento com Laura.
 Achou que a verdade sobre Jody magoaria muitas pessoas  comentou.
 Pensei no efeito que teria sobre minha me. Sabe, s descobri que tinha uma meia-irm quando meu pai morreu, h dois anos. Imagine minha surpresa, quando ele confessou que tivera um
caso, e que eu tinha uma irm que no conhecia. 
Pearce olhou pela janela, pensativo.
 O caso no durou muito tempo  continuou.
	Meu pai amava minha me e percebeu o erro, mas sempre sustentou Jody. Eles tinham um excelente relacionamento.
Cathy disse a si mesma que, se no contasse que estava grvida, seria uma injustia para Pearce e para o beb, porm no tinha certeza se conseguiria v-lo casado com outra mulher e s aparecendo para visitar o filho nos feriados e nos aniversrios.
	Sua me no sabe?  perguntou.
	Eu supunha que no, at que ela me ligou um dia desses, dizendo que estava feliz por eu estar cuidando de Patty. Contou que perdoara meu pai, muitos anos atrs.
Pearce fitou Cathy com evidente tristeza. Ela teve vontade de confort-lo, mas lembrou-se de Laura e falou a si mesma que no o desejava em sua casa, porque ele despertava-lhe emoes quase incontrolveis.
 Por que est me contando isso?  indagou.
	No quer que eu escreva a respeito, quer?
	Quero.
	No posso.
	Como no pode?  Pearce mostrou-se incrdulo.   sua grande chance.
	Procure outra pessoa.
	No quero outra pessoa. Quero voc e quero que jante comigo hoje  noite.
 No vai me fazer mudar de idia.
Pearce riu.
	Se jantar comigo, prometo no dizer nada que a faa lembrar-se do jornal  falou.
	E conversaremos sobre o qu?
	Sobre o que quiser. O tempo, eu e voc...
	O tempo est feio, eu sou uma jornalista inescrupulosa, e voc  um sedutor que no hesita em usar as mulheres.
	Vamos, me d uma chance  ele pediu.
	Uma chance para qu?
	Uma chance de recomearmos. Nada de segredos entre ns, nada em nosso caminho.
	Que caminho?  Cathy estreitou os olhos.  Quer me convencer a escrever sua histria, ou est querendo me seduzir para irmos para a cama? Qual o problema? Laura no pode jantar com voc esta noite?
	Laura est em Nova York.
	E voc precisa de algum at ela voltar.  Cathy caminhou para a porta e abriu-a.  Estou ocupada. Na verdade, j tenho um encontro esta noite.
	Com quem?
	David Collins.
David ainda estava na Cote d'Azur, mas aquilo era irrelevante.
 Vocs reataram...  Pearce murmurou.  Achei que tivessem pouco em comum. Voc disse que ele no gostava de crianas...
	Isso no  da sua conta!
	, tem razo, no  da minha conta. Pearce passou pela porta e afastou-se, sem olhar para trs.

CAPTULO XIII

Cathy olhou-se no espelho. No usava nenhuma jia, e seus cabelos estavam presos num coque, com alguns cachos estrategicamente soltos.
Estou muito bem, pensou, passando um pouco mais de blush nas mas do rosto.
Cobrir uma cerimnia de premiao literria no hotel Clarins fora idia de Mike. Ele jogara um dos convites na mesa dela como se fosse uma ordem.
	Como conseguiu esse convite?  Cathy perguntara, desconfiada.
	Tenho minhas conexes no meio literrio.  Mike explicara sorrindo, parecendo satisfeito consigo mesmo.  Pode colocar na sua coluna da semana que vem.
	Pearce Tyrone estar l, no ?
	Claro.
Cathy no contara ao editor que se recusara a escrever um artigo sobre Pearce e Jody Sterling. Fazia uma semana, desde que vira Pearce, e comeava a perceber o erro que cometera ao recusar-se a escrever a histria que ele oferecera.
Mike sabia que Pearce concordara em dar uma entrevista, e Cathy nunca seria perdoada, se confessasse que se negara a escrever. Ela fora uma idiota, pois na semana seguinte a histria de Pearce poderia aparecer num jornal rival, e ela perderia o emprego e a boa reputao como jornalista.
O jantar daquela noite era uma chance de ela ver Pearce e dizer a ele que mudara de idia.
Escrever reportagens era seu trabalho, e ela precisava pensar no futuro, na carreira e no beb. Levaria algumas horas para entrevistar Pearce, anotando todos os detalhes, ento o esqueceria para o resto da vida.
Clarins era um elegante hotel, situado s margens do rio Tamisa. O jantar acontecia no enorme salo de festas, que abrigava cerca de trezentos convidados.
Cathy no viu Pearce durante a refeio. Ento, ao incio da cerimnia, ele foi chamado ao palco para receber o prmio por seu ltimo livro. Foi longamente aplaudido.
Ele fez um breve discurso, dirigindo agradecimentos a algumas pessoas, e sentou-se novamente.
Cathy no conseguiu ver quem estava sentado na cadeira ao lado da dele, mas notou que a mesa era grande e que havia muita gente em sua companhia.
De repente, conversar com Pearce pareceu-lhe impossvel, por isso ela comeou a querer ir embora, mas estava com Mike, e ele no a deixaria sair.
Quando a cerimnia de premiao terminou, as pessoas levantaram-se e comearam a conversar, formando grupos. Cathy olhou para o relgio de pulso.
	Est ficando tarde  murmurou.
	No seja boba, a noite  uma criana  Mike falou e enlaou o brao no dela.  Quero conversar com algumas pessoas. Vamos pegar um drinque.
O salo de festas estava lotado e abafado. Cathy aceitou uma taa de champanhe oferecida por Mike, ento foi apresentada a um grupo de pessoas que ele parecia conhecer muito bem. Sorriu educadamente.
Ao olhar ao redor, avistou Pearce, mas logo percebeu que ele estava de braos dados com uma morena muito atraente.
Surpresa e cime dominaram-na, quando ela viu a mulher ficar na ponta dos ps e beijar a face de Pearce. Ele sorriu e olhou na direo de Cathy, que desviou o olhar.
	Est quente aqui, no?  comentou com Mike.
	Est uma noite agradvel  ele respondeu.  Quer mais champanhe?
	No, obrigada. Se no se importa, vou ao terrao tomar um pouco de ar fresco.
	Claro.
Cathy colocou a taa vazia sobre uma mesa e caminhou para o terrao, que se encontrava vazio e proporcionava uma bela vista do rio e das luzes da cidade.
 O vero chegou.
A voz de Pearce fez Cathy girar nos calcanhares, espantada.
	Est uma noite agradvel  ela declarou.
	No falei que poderamos conversar sobre o tempo, se voc preferisse?
Ela estremeceu. Sabia que Pearce se referia ao convite para jantar que ela recusara, alegando no terem nada para conversar.
	Parabns pelo seu prmio  ela disse, tentando quebrar a tenso entre eles.
	Obrigado. Detesto esse tipo de coisa. Raramente venho.
	Parece que est se divertindo. Quem  a nova namorada?
	Posso apresent-la depois, se quiser.
	No, obrigada.
Cathy torceu para que seu tom de voz no soasse carregado de raiva.
 Voc  cheia de surpresas  Pearce falou.  Pensei que quisesse entrevistar minha acompanhante.
Seguiu-se o silncio. Ela no ousou fit-lo. Lembrou-se de que queria uma oportunidade para conversar com Pearce para dizer que havia mudado de idia e de que gostaria de entrevist-lo, mas era difcil ser profissional, quando ele estava por perto.
	Onde est seu namorado?  Pearce perguntou.
	Qual? David Collins?
Cathy fez aquela pergunta num tom jocoso, insinuando que tinha vrios namorados.
	O prprio  ele respondeu, obviamente irritado.
	Est trabalhando.
	Onde?
	No sei.
Cathy no tinha a menor idia de onde David estava.
 Em Londres?  Pearce sugeriu.
	, claro.
	Vai v-lo mais tarde?
	No sei, talvez. Por que tantas perguntas? Se algum o ouvisse, poderia achar que est com cime.
	S estou interessado.
	E Laura?  Cathy indagou em tom neutro.
	Pensei que seria sua acompanhante, esta noite.
	Laura est na Frana.
	Ela gosta de viajar, no?
	Est namorando.
	E isso aborrece voc?
	Se me aborrece?  Pearce repetiu, surpreso.
	Por qu?
	Achei que voc e Laura... Achei que gostasse dela.
	Gosto, como amigo, mas  voc quem deveria estar aborrecida.
Cathy franziu a testa.
	No entendi.
	A pessoa com quem Laura est envolvida  David Collins  ele falou.  Aparentemente, ele no voltou para a Inglaterra.
Ela enrubesceu.
	Voc mentiu  Pearce murmurou, tocando-lhe o rosto.  Por qu?
	No sei.
	Posso adivinhar? Talvez quisesse que eu ficasse enciumado?

	No. Por que eu haveria de querer isso? Cathy afastou-se.
	Perguntei isso a mim mesmo, muitas vezes, quando descobri que David Collins no saiu da Frana  Pearce contou.
	Escute, por que no volta para sua namorada? Eu no...
	Venha  ele disse, segurando-a pelo brao.
	Venha conhecer minha namorada.
 Pare com isso!
Ela tentou soltar-se, mas Pearce segurou-a com firmeza, puxando-a de volta para o salo de festas.
	Catherine, quero que conhea Jody.
	Jody Sterling?
Agora que estava frente a frente com a atriz, Cathy reconheceu-a. Jody tinha uma cicatriz no lado direito da testa, que tentava esconder com maquilagem e uma franja desfiada.
 Ningum me reconhece, desde que mudei o corte e a cor dos cabelos  disse Jody, rindo. 
Voc  Catherine Fielding?
Cathy movimentou a cabea afirmativamente.
	Obrigada por ter cuidado de Patty  a atriz agradeceu.  Pearce contou como voc foi maravilhosa.
	Contou?  Cathy repetiu tolamente.
	Escute, Jody, tenho muito o que conversar com Catherine  Pearce falou.
	Sei que tem. Vai para casa?
	Vou. Com Catherine.
	No estou com pressa de ir embora. Veja se Patty est bem, por favor  pediu Jody.
	Claro.
	Pearce, no vou a nenhum lugar com voc
	Cathy protestou, enquanto ele a guiava para o hall dos elevadores.  Estou com Mike.
	Mike entender. Ele sabe quem conseguiu os convites para esta festa porque eu queria ver voc.
	Quer dizer que foi voc que arrumou os convites?
	Claro. Achei que era a nica maneira de conversar com voc. Foi to fria, naquele dia!
Ao sarem  rua, Pearce fez sinal para um txi.
	Percebe que, agindo desse jeito, nunca vai se livrar de Mike?  Cathy indagou ao acomodar-se no veculo.
	Quero que voc escreva a reportagem.
	Foi por isso que me fez vir at aqui esta noite? No precisava ter se incomodado. Mudei de idia. Decidi escrever sua histria.
Pearce sorriu.
	Sabia que recuperaria o juzo.
	Ou escrevo, ou perco o emprego  Cathy declarou.
	Conseguiria outro facilmente.
	Obrigada pelo voto de confiana, mas, depois de ter me recusado a escrever sua histria, teria sorte se conseguisse um emprego como bab.
	A famlia Dubonnet com certeza daria uma carta de recomendao.
Cathy riu.
	Ser?
	Se eles no dessem, eu daria  Pearce afirmou, ento segurou a mo dela.  Voc  linda, sabia?
O motorista do txi parou o veculo em frente  casa indicada por Pearce, que pagou-o, desceu do carro e ajudou Cathy a sair.
	 sua?  ela perguntou, encantada com a fachada da casa.
	E. Nunca fico aqui muito tempo. Prefiro a Frana.
Eles passaram pelo porto e cruzaram o jardim. Uma jovem estava na sala de estar, sentada no sof, lendo um livro. Ergueu-se ao ouvi-los entrar.
	Como est Patty?  Pearce indagou.
	Bem, sr. Tyrone.  respondeu a garota, olhando para Cathy.
	Obrigado, Natalie.  Ele abriu a carteira, tirou algumas notas e pagou a jovem.  Filha de meu vizinho  informou, assim que Natalie saiu da casa, fechando a porta atrs de si.  Trabalha como bab de Patty, quando Jody vem me visitar.
	Ela ficou surpresa. Viu voc sair com uma morena e voltar com uma loira  Cathy comentou em tom de brincadeira.
	Tenho uma reputao a manter, no?
	Que reputao?
	A de um sedutor sem escrpulos  ele riu, ento prosseguiu, srio:  Ficou irritada quando me viu com Jody e pensou que eu estivesse enganando Laura?
	No  ela negou, pois jamais admitiria que tivera cime de Jody, ou de Laura.
	Vou ver Patty  Pearce avisou.  Sirva-se de um drinque.
Por um momento, Cathy hesitou, ento seguiu-o.
 Quero ver Patty. Posso?  ela perguntou.
 Como nos velhos tempos, hein?
Subiram a escada e andaram por um corredor.
Ele abriu a porta de um aposento decorado em cores de tom pastel, azul e rosa. Num canto havia um bero, onde Patty dormia tranquilamente.
	Ela cresceu  Cathy murmurou com carinho.
	Nasceram mais dois dentinhos.
	 mesmo?
	Lembra o dia em que voc chegou, e ela no parava de chorar?
	Nunca vou esquecer.
De sbito, Cathy foi dominada por doces lembranas, e sentiu uma espcie de dor no peito.
	 melhor eu ir embora  sussurrou.
	Catherine, no v  pediu Pearce.
Ela o fitou com os olhos cheios de lgrimas.
	Eu j disse que vou escrever o artigo  lembrou-o.  No sei por que  to importante que eu...
	No dou a mnima para o artigo.  voc que eu quero, que sempre quis. Fui um idiota em deix-la ir embora de minha vida e sinto saudade de voc a cada minuto.
Uma lgrima correu pela face de Cathy.
 Disse que no sentia cime de mim, mas sinto cime de voc  ele continuou, pousando a mo no ombro dela.  Quando David Collins foi ao meu iate, tive vontade de acertar um soco nele, porque o vi olhando para voc, seguindo-a daquele jeito, e cheguei  concluso de que no s trabalhavam juntos, como provavelmente eram namorados.
Cathy moveu a cabea negativamente, no acreditando no que ouvia.
 Quando Laura e David foram embora, no pude me conter  Pearce falou.  Eu a desejava, eu a desejava tanto que chegava a doer. Ainda a desejo. Quero ir para a cama com voc, quero fazer amor com voc, quero que seja minha. Dessa vez, no teremos pressa...
	Pare.  apenas sexo.
	Apenas sexo?  Pearce beijou-a apaixonadamente.  No  apenas sexo.  amor, e venho lutando contra esse sentimento desde que a vi.
	Verdade?
	Verdade.  Ele a beijou mais uma vez.  Lembra quando disse que eu me protegia contra um envolvimento emocional mais profundo? Que tinha medo de perder a mulher amada como perdi minha esposa?
	Lembro.
	Voc estava com a razo. Desde que minha esposa morreu, tive medo de me envolver, estive me escondendo da vida. Quando voc apareceu em minha porta, algo dentro de mim...
Pearce afagou os cabelos dela, fazendo uma pausa.
	Quis convencer a mim mesmo de que a deixei ficar porque queria jogar seu jogo, mas era uma desculpa  prosseguiu.  Quando nos beijamos, disse a mim mesmo que no era nada srio, mas era outra desculpa.
	Depois que fizemos amor, voc disse que s estava jogando o meu jogo...
	Mentia para mim mesmo. Mesmo quando permiti que sasse de minha casa, estava mentindo para mim mesmo. At quando liguei para seu editor, perguntando se podia almoar com voc, tentei me convencer de que era s para conceder uma entrevista. Cathy afastou-se.
	E agora?  indagou.
	Chega de desculpas. Eu te amo, Catherine, preciso de voc. Quer se casar comigo?

	No  to simples assim. Pearce franziu a testa.
	Existe outra pessoa?  indagou.
	De certa forma.

	No  David, ? Achei que voc estivesse mentindo...
	Eu estava. H muito tempo, no h nada entre mim e David.
 Ento, quem ?
Cathy olhou-o, ansiosa.
	Estou grvida  contou e, se no estivesse to angustiada, teria rido da expresso abismada de Pearce.  Isso no o deixa incomodado?
	Incomodado!?  Pearce abraou-a e beijou-a.  Estou feliz!
Ela desatou a chorar.
	No chore, querida, tudo vai ficar bem, estou com voc  ele murmurou.  Eu te amo.
	Eu sei, e  por isso que estou chorando. Eu te amo tanto.
 Venha para o meu quarto e me mostre.
Saram do quarto de Patty. Pearce fechou a porta e guiou Cathy at seu aposento.


KATHRYN ROSS nasceu em Zmbia. Educada na Irlanda e na Inglaterra, atualmente vive numa vila perto de Blackpool, Lancashire. Kathryn  terapeuta, mas escrever  sua paixo. Quando criana, escreveu histrias de aventuras e, aos treze anos de idade, j era editora do jornal da escola. E uma sagitariana romntica, que adora viajar para lugares exticos.
